sábado, 20 de maio de 2017

Locações de Filmes em Monte Belo do Sul

A cidade de Monte Belo do Sul fica na Região dos Vinhedos. Em área de colonização italiana. Recentemente, o município passou a servir de locação a filmes. Paisagens locais aparecem em, ao menos, duas produções nacionais.

Lázaro Ramos, Fernanda Torres e Wagner Moura, Saneamento Básico, o Filme (2007)
Saneamento Básico, o Filme (2007)

O Filme da Minha Vida (em produção)
Conta com Vincent Cassel e Selton Mello no elenco.
O roteiro baseou-se numa novela de Antonio Skármeta.
O escritor chileno ganhou fama com “O Carteiro de Pablo Neruda”.
O Carteiro e O Poeta” é uma adaptação do romance ao cinema.

O Filme da Minha Vida” também tem locações em:

Ondina Clais Castilho, em 'O Filme da Minha Vida'
Ondina Clais Castilho, em 'O Filme da Minha Vida'


Saneamento Básico, O Filme (2007) 112 minutos
O filme também tem locações em Bento Gonçalves e Santa Tereza.

36 comentários:

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida +++

O jovem Tony (Johnny Massaro) decide retornar a sua cidade natal.
Remanso, na Serra Gaúcha.
Ao chegar, descobre que Nicolas (Vincent Cassel), seu pai, voltou à França.
Alegava sentir falta dos amigos e do país de origem.
Tony acaba tornando-se professor.
E se vê em meio aos conflitos e inexperiências juvenis.

Baseado no livro “Um Pai de Cinema” de Antonio Skármeta.

Selton Mello volta a trabalhar com o roteirista Marcelo Vindicato.
Depois de Feliz Natal (2008) e O Palhaço (2011).

Adaptado de Adoro Cinema

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinema em Cena +++

Selton Mello estreou na direção de longas, em 2008.
E o resultado veio com uma surpresa.
Ator talentoso e dono de uma carreira admirável.
Em "Feliz Natal", revelava uma maturidade notável.
Como indivíduo e como artista.
Criando uma narrativa densa e frequentemente dolorosa.
Através da dinâmica entre personagens angustiados.
Um tom diametralmente oposto a do magnífico filme seguinte.
"O Palhaço" equilibrava-se maravilhosamente bem.
Entre o humor e o drama.
Assim, eu talvez não devesse ficar tão surpreso.
Com a força de seu terceiro trabalho, "O Filme da Minha Vida".
Mas fiquei.
Não por suspeitar da competência de seu realizador.
Mas por não esperar sua capacidade de evocar sentimento tão intenso de nostalgia.
E o fato de ter sido fotografado pelo mestre Walter Carvalho não atrapalha, obviamente.

Adaptado de Pablo Villaça (Cinema em Cena)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinema em Cena +++

Baseia-se no livro do chileno Antonio Skármeta.
Que faz uma breve participação na sequência que se passa em um bordel.
O roteiro foi escrito por Mello ao lado de Marcelo Vindicato.
Seu colaborador habitual.
E conta a história de Tony (Massaro), um jovem professor.
Filho do imigrante francês Nicolas Terranova (Cassel).
E da brasileira Sofia (Clais).
Mora em um pequeno vilarejo no sul do país.
Deixando-o temporariamente ao fim da adolescência.
Para cursar faculdade em uma cidade grande.
Quando ele retorna, porém, recebe a notícia de que seu pai retornou à França.
Sem explicações, deixou a esposa sozinha.
E como foco da atenção de Paco (Mello), antigo amigo da família.
Buscando lidar com aquele abandono.
Ao mesmo tempo em que inicia a vida adulta.
Como professor em uma escola local.
Tony se divide também entre as irmãs Luna (Linzmeyer) e Petra (Arantes).
Que o atraem de maneiras diferentes e particulares.

Adaptado de Pablo Villaça (Cinema em Cena)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinema em Cena +++

Fotografado com inteligência e sensibilidade por Carvalho.
Este oscila entre a nostalgia de um sépia levemente dessaturado.
E o romantismo de passagens com cores mais intensas.
E com flares e contraluzes pontuais.
Que, por sua vez, se contrapõem à escuridão.
E ao triste cinza de uma sequência sob a chuva.
"O Filme da Minha Vida" é uma obra com cor de saudade.
E a melancolia que inspira no espectador é movida não a pessimismo, mas a afeto.
Além disso, o Cinema já tem um dom particular para o simbolismo.
E aqui tudo parece se converter instantaneamente em signos.
Um rádio se torna a tradição contrastada à vápida televisão.
A França se converte em uma representação da saudade e da deserção.
O clássico Rio Vermelho ilustra a ambiguidade de Tony.
Com seus conflitos relacionados a figuras paternas.
Uma bicicleta é a manifestação de um aprisionamento na infância.
E uma moto é simultaneamente a saudade e a divisa entre a meninice e a vida adulta.

Boa parte da poesia intrínseca encontra-se em sua linda compreensão.
Acerca da natureza da memória e como esta é ao mesmo tempo prisão e liberdade.
Como Tony pode se esquecer do pai, como sugere Paco.
Se foi aquele quem o ensinou a andar de bicicleta.
E, assim, encontra-se ao seu lado todas as vezes em que pedala de casa para o trabalho?
Do mesmo modo, o diretor sabe como as memórias.
Têm o poder de nos devolver às idades que tínhamos quando foram formadas.
E, portanto, é apenas normal.
Que Tony volte a ser representado na tela por sua versão infantil.
Ao lembrar-se da figura imponente do pai.
Afinal, a recordação o torna criança.
E não podemos ignorar, tampouco, como as memórias transformam tudo em signo.
Um presente se converte na representação de uma relação.
Um dia chuvoso se torna um ideal romântico passado.
Ou a angústia de um amor perdido.

Adaptado de Pablo Villaça (Cinema em Cena)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinema em Cena +++

Tomemos, como exemplo, o quarto de Petra.
Concebido pelo excelente designer de produção Claudio Amaral Peixoto.
Como um pequeno altar às vitórias da moça em concursos de beleza.
O aposento traz, naqueles troféus empoeirados, não uma afirmação de suas conquistas.
Mas a lembrança dolorosa de um passado melhor do que o presente.
Um presente, por sinal, que a cada dia avança rumo ao futuro.
E afasta a moça ainda mais daquilo que era sua única força verdadeira.
Sua juventude e a beleza que a acompanha.
Aliás, vivida por Bia Arantes como uma mulher que sabe.
Que cada olhar que lança a Tony (e aos homens de modo geral) tem a força de uma faca.
Petra ainda assim mal consegue ocultar uma vulnerabilidade subjacente.
À sua aparente autoconfiança.
Como se temesse ser desmascarada a qualquer momento.
Enquanto isso, sua irmã Luna é encarnada por Bruna Linzmeyer.
Como um reflexo quase perfeito da outra.
Já que, aos poucos, seu olhar vulnerável de mulher apaixonada vai cedendo lugar.
A uma força crescente – força que se tornará fundamental para o amado.

Transição igualmente complexa é retratada por Johnny Massaro.
Cujo rosto jovial e livre das marcas provocadas por decepções.
Torna-se gradualmente mais severo e menos inocente.
Permitindo que percebamos como sua ingenuidade está sendo arrancada uma decepção por vez.
O que, de forma fascinante, parece torná-lo mais forte.
E se Vincent Cassel inicialmente confere vida, força e intensidade a Nicolas.
Estas características progressivamente cedem espaço ao pesar resignado.
De alguém que sente ter uma dívida impossível de pagar.
Mas que ainda assim se sente preso a esta.
Para completar, Selton Mello interpreta Paco como um homem.
Que simultaneamente exala gentileza e ameaça.
Levando o espectador a compreender – mesmo reprovando – algumas ações.
Que, nas mãos de um ator menos capaz, afastariam o público de vez.
Ao passo que Rolando Boldrin simboliza um passado cheio de histórias e lembranças.
Com sua simples presença e seu rosto forte e expressivo esculpido pelo tempo.

Em certo momento, Paco explica a Johnny por que não gosta de ir ao cinema:
“É um troço escuro que você fica lá dentro vendo a vida dos outros.
Em vez de cuidar da sua e perde duas horas da vida”.
Pois de minha parte só tenho a agradecer aos responsáveis por esta obra.
Por me permitirem passar este tempo ao lado de personagens tão belos.
Em um universo tão cheio de afeto.

Adaptado de Pablo Villaça (Cinema em Cena)

Leonardo Brocker disse...

+++ Contemplando o Passado - Quarto Ato +++

Ainda lembro o meu primeiro contato com o futebol.
O meu pai me levava para alguns de seus famigerados “bate-bola” entre amigos.
Eu assistia e que, com insistência do genitor, passei a participar.
Já a minha mãe me apresentou a sétima arte.
Quando me levou para assistir Dinossauros, filme da Disney de 2000.
Enquanto isso, um tio me mostrou o universo colorido dos quadrinhos.
Que até hoje uso como literatura rotineira.
E, posteriormente, a minha namorada sugeriu uma playlist diferente.
Que, quando vou no Youtube, é muito difícil não procurar.
A lembrança, deste modo, fica muito viva.
Quando assisto uma partida de futebol, vou ao cinema, leio um quadrinho.
Ou escuto Radiohead.
O Filme da Minha Vida, nova obra de Selton Mello, trata exatamente disso: nostalgia.

A história foi escrita pelo próprio Mello e por Marcelo Vindicatto.
E adapta a obra do chileno Antonio Skármeta.
Fala de Tony, um jovem professor.
Ele retorna para sua cidade natal depois de uma formação acadêmica.
E descobre que o seu pai se separou de sua mãe e voltou para a França.
Por meio disto, o personagem fica sozinho durante as suas decepções.
De modo particular e identificável.
Ainda que tenha o apoio de Paco, um antigo amigo da família.

Selton dirige com a experiência já garantida em Feliz Natal e O Palhaço.
Fica fácil observar a elegância em sua montagem.
Ela passeia pela dor e felicidade.
Com uma técnica belíssima fotografada por Walter Carvalho.
Esta oferece uma sensibilidade ao abraçar o sentimento de ferida aberta.
O romantismo, deste modo, traz um clima de pessimismo.
Como se as desilusões fizessem parte de seu crescimento.
O que confere à obra uma beleza nos quadros.
Que, sem muita dificuldade, encantam o espectador.

Adaptado de Gabriel Amora (Quarto Ato)

Leonardo Brocker disse...

+++ Contemplando o Passado - Quarto Ato +++

Memória, melancolia e saudade são muito presentes através dos signos.
E oferecem uma representação dos personagens em pequenos objetos.
Como no rádio ou na bicicleta.
Estes brindam uma sensação agridoce, ainda que bela.
Esta manifestação, contudo, traz um aprisionamento intrínseco no cerne do roteiro.
E com ajuda da música, emociona nas passagens de tempo da fase infantil até a adulta.
Vale lembrar das sequências que Tony enxerga o pai.
Sob o ponto de vista de um personagem amadurecido.
E mesmo com saudades, sente agonia.

O elenco, semelhantemente, invoca a nostalgia.
Johnny Massaro, no caso, cumpre aqui com muito esforço a sua melhor atuação.
Principalmente quando as emoções falam mais que as palavras.
Já que as expressões constrangem, assim como trazem empolgação.
Por outro lado, Vincent Cassel desenvolve um pai ausente.
E sem muitas palavras, insiste na sensação de dúvida e arrependimento das escolhas.
Já Mello traz mais um personagem diferente em seu currículo.
Uma vez que oferece amor e afeto, ainda que no desdém.

O roteiro, por meio disto, oferece uma viagem ao crescimento.
Algo inspirado no que o personagem viveu.
Tony garante uma inspiração apaixonante de não desistir.
Dado que se baseia nos bons momentos do passado.
Seja com a bicicleta, com a música ou com o cinema.
E isto, graciosamente, já expande o afeto de Mello por seus personagens.
Mesmo que se baseando na dor de viver com o que não pode.
E pior que isto: de imaginar os bons momentos do passado em busca de melhores no futuro.

Por último, como disse Don Draper em Mad Men...
"A nostalgia é uma pontada no coração muito mais potente que a memória".
E o filme avança e retrocede em busca de um lugar a que ansiamos por voltar.
O Filme da Minha Vida fala disso, felizmente, de forma muito sincera.

Adaptado de Gabriel Amora (Quarto Ato)

Leonardo Brocker disse...

+++ Onde Sutileza se Encontra com Beleza +++

“O Filme da Minha Vida“ é a terceira investida de Selton Mello como diretor.
Na trama, acompanhamos um trecho da vida do jovem Tony (Johnny Massaro).
Quando este decide retornar a Remanso, Serra Gaúcha, sua cidade natal.
Ao chegar, descobre que Nicolas (Vincent Cassel), seu pai, voltou para França.
Tony se torna professor.
Ao mesmo tempo que se vê em meio aos conflitos e inexperiências.
Da recente vida adulta.

Selton Mello estreou na função de diretor em “Feliz Natal” (2008).
E passou pelo fabuloso “O Palhaço” (2011).
Agora, apresenta uma sinceridade que dá à história contornos de realismo.
Fortemente aliado a um esmero técnico, a assinatura se repetiu e evoluiu.
Isso é visível desde o som.
Quando opta por “vazar” o real tilintar dos dentes ao mastigar.
Algo que nem prestamos mais atenção.
Mais ainda quando o elenco apresenta seus textos sem pressa.
E dá ao espectador a possibilidade de entrar mais naquela história.
Por vezes, inclusive, o diálogo nem se fez necessário para a cena funcionar.

Pressa é algo que “O Filme da Minha Vida” não tem.
Por saber exatamente onde quer chegar.
E por acreditar muito no seu ponto de virada.
Dá muito tempo para os personagens se mostrarem.
Sabemos muito, inclusive, dos que não tem tanto tempo de tela.

Adaptado de Raphael PH Santos (Cinema com Rapadura)

Leonardo Brocker disse...

+++ Onde Sutileza se Encontra com Beleza +++

O filme acompanha Tony (Johnny Massaro) em sua jornada.
E apresenta suficiente conhecimento dos que estão próximos ao protagonista.
Quer seja sua mãe, seu pai, o amigo do seu pai, seu aluno.
Ou sua companheira de trama, a Luna, vivida pela talentosa Bruna Linzmeyer.
Dona de beleza vintage e perfeita para o papel.
Por entregar a leveza e sensualidade que o papel pediu.
A repetida olhada de ombro carrega consigo uma sutileza admirável.
Numa sequência que se passa em uma festa.
Johnny Massaro como Tony vai muito bem também.
Apresenta um personagem que muda em pequenos detalhes ao longo da história.

Tempo é algo relevante aqui.
Apesar de não ser a principal discussão.
Pois trata-se primordialmente de problemas não resolvidos.
É tão importante para o todo quanto esse conflito do protagonista.
O trem representa o tempo que não pára.
E o ir e vir que precisamos fazer.
Para resolvermos (logo) certas situações que a vida nos dá.
Sem resolver esses pontos, fica difícil seguir.
E ser quem estamos preparados para ser.
O tempo é aquele que permanece seguindo num ritmo previsível e artificial.
Luna até fala sobre isso ao olhar um relógio.
Mas ainda assim difícil de emparelhar.
Hora você chega cedo demais e tem que esperar o trem sair.
Hora o trem te leva para outro lugar.
E você não vê os efeitos do tempo no local que você deixou.
Numa cena, a única de Rolando Boldrin, esse assunto torna-se expositivo.
Johnny Massaro e o próprio Selton Mello contracenam com Boldrin.

Adaptado de Raphael PH Santos (Cinema com Rapadura)

Leonardo Brocker disse...

+++ Onde Sutileza se Encontra com Beleza +++

O trabalho se mostrou igualmente competente na escalação dos demais atores.
Vincent Cassel tem pouquíssimo tempo de tela.
Tempo bem utilizado por conta do natural sotaque franco-brasileiro.
E por ser um genuíno “gringo”.
Que se destaca como tal face a todos os demais do elenco.
Selton Mello se escala para um papel também curto.
Mas importante e dono de veia cômica utilizada sob medida.
O texto que apresenta a diferença entre o porco e o homem.
Teria que sair da boca e trejeitos de quem viveu Chicó e Benjamin.
“O Auto da Compadecida” e “O Palhaço”, respectivamente.
E escalar Boldrin, além de um acerto, uma belíssima homenagem.

Adaptado de Raphael PH Santos (Cinema com Rapadura)

Leonardo Brocker disse...

+++ Onde Sutileza se Encontra com Beleza +++

A fotografia de Walter Carvalho optou por utilizar o primeiríssimo plano.
Estilo que conversa diretamente com as escolhas do roteiro.
De entregar seus detalhes com muita paciência.
Esse plano, junto com o plano detalhe, causa sentimento de ausência a partir do enfoque.
Entretanto, os planos gerais, ou os mais abertos, surgem com parcimônia.
Quando a história avança, abrindo cada vez mais o seu escopo.
Os planos gerais também atuam a fim de valorizar as lindas locações.
Assim como os close-ups conversam diretamente com uma personagem que é fotógrafa.
E em vários momentos as tomadas estáticas valorizam o mise-en-scène.
A movimentação teatral dos atores e a competente direção de arte.
Dando tempo para que analisemos com calma toda organização.

Ainda na cinematografia, a paleta de cores é quase toda em tons pasteis.
Nada cítrico, apenas destacando o vermelho pin-up.
Quando o filme precisa do tom romântico.
E, muito delicadamente, do erótico.
O filtro vintage e o chuvisco sutil e proposital somam-se.
Para apresentar a estética de época.
Além de corroborar com o assunto de tempo passado e tempo passando que a trama levanta.

Adaptado de Raphael PH Santos (Cinema com Rapadura)

Leonardo Brocker disse...

+++ Onde Sutileza se Encontra com Beleza +++

O filme seria impecável.
Se não fosse pelo incomodo atraso na apresentação do conflito principal.
Algumas cenas aparentemente dubladas.
Mesmo onde a captação do áudio poderia ser feita ao natural.
E por algumas (poucas) transições abruptas na montagem.
Sendo que a história pede calma e leveza.
Em vez da rigidez que o corte seco transparece.

Cada minuto de projeção de “O Filme da Minha Vida” demonstra-se útil.
Para entendermos os problemas, as decisões, os personagens (principais e secundários).
E a vida simplória naquela cidade pacata e dona de charme marcante.
Duas características que podem ser literalmente atribuídas também a esse filme.
Dono de final forte e eficiente.

Adaptado de Raphael PH Santos (Cinema com Rapadura)

Leonardo Brocker disse...

+++ Rito de Iniciação em Ambiente Marcado pela Beleza +++

Selton Mello, em seu terceiro longa, dá seguimento à carreira de diretor.
Em obra inspirada no texto do chileno Antonio Skármeta.
Autor de O Carteiro e o Poeta.

No primeiro loga, Feliz Natal, abusava das referências de cinéfilo.
Mas, apesar da sobrecarga, também fazia seu trabalho mais ousado.
Em O Palhaço, houve uma simplificação, no bom sentido do termo.
E uma parceira enriquecedora com Paulo José.
Grande ator e também pensador do cinema, das artes e da vida.
Agora, em O Filme da Minha Vida, Selton ampara-se na arquitetura sólida.
De um texto bem construído e, com esses alicerces, deixa voar a imaginação.
O romance de Skármeta chama-se Um Pai de Cinema.
O título promete articulação com a magia do cinema e não nega fogo.
Embora seja, de certa forma, um anti-Cinema Paradiso.

Adaptado de Luiz Zanin Oricchio (O Estado de S.Paulo)

Leonardo Brocker disse...

+++ Rito de Iniciação em Ambiente Marcado pela Beleza +++

O Filme da Minha Vida refere-se, em sua essência, a um rito de passagem.
No caso, um tanto tardio.
Pois o personagem principal, Tony Terranova, é um jovem de 20 anos, formado.
No regresso à sua Remanso natal, na serra gaúcha, torna-se professor de francês.
E tem de dar conta de um elemento traumático da sua biografia.
O pai, Nicolas (Vincent Cassel), francês, retornou para a Europa.
Sem dar maiores explicações.
Sumiu.
Enquanto um chegava, outro partia.
Deixando um vazio a ser preenchido pelo jovem.
Um vácuo a ser preenchido de sentido.

A mãe, Sofia (Ondina Clais), é uma mulher silenciosa.
O mentor de Tony, Paco (Selton Mello), especialista na formulação de frases lapidares.
Mantém alguns fatos fundamentais na surdina.
Tony se apaixona por Luna (Bruna Linzmeyer).
Mas se sente também atraído pela irmã da moça, a envolvente Petra (Bia Arantes).
Enquanto isso, tem de levar um aluno ao bordel da cidade vizinha.
Para que este se inicie nas artes eróticas.
O próprio Tony vê-se necessitado de uma iniciação.
Que a vida acaba por lhe trazer, e não da forma que esperava.

Adaptado de Luiz Zanin Oricchio (O Estado de S.Paulo)

Leonardo Brocker disse...

+++ Rito de Iniciação em Ambiente Marcado pela Beleza +++

De certa forma, a trajetória de Tony é a de uma psicanálise.
Em que algumas pistas são colocadas para o indivíduo.
Mas terá de ser ele, e somente ele, a formular conclusões sobre si mesmo.
Deve preencher lacunas de sua biografia.
Inventar hipóteses sobre seu “romance familiar” (expressão de Freud).
Ou ainda, de maneira mais modesta, encontrar um jeito de viver e trabalhar.
Em relativa paz e funcionalidade.
O que é uma das definições possíveis da saúde, segundo o mesmo Freud.
Capacidade de amar e trabalhar - nada mais nem nada menos.

Esse trajeto existencial vem num formato em que a beleza joga papel fundamental.
Beleza de rostos, paisagens e ambientes, captados pela lente de Walter Carvalho.
Mas, no limite, beleza dos sentimentos positivos, que acabam por prevalecer.
Essa exuberância, talvez excessiva, serve também para aplainar certas arestas.
Apenas insinuadas na dramaturgia.
Sem ser um feel good movie (filme para se sentir bem) no sentido clássico.
O filme é, como definiu Selton Mello, um presente ao espectador em tempos difíceis.
Um bombom.

Adaptado de Luiz Zanin Oricchio (O Estado de S.Paulo)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Crítica Cineweb +++

O chileno Antonio Skármeta escreveu o livro que inspirou "O Carteiro e o Poeta".
E assina também o romance por trás de O Filme da minha Vida.
O terceiro longa de Selton Mello.
Pode-se ver um parentesco da obra com seu filme anterior, "O Palhaço" (2011).

Ambos tratam de um processo de amadurecimento de um jovem.
Em "O Filme da Minha Vida", Tony Terranova (Johnny Massaro).
Ele é o professor primário de uma pequena cidade no interior gaúcho, em 1963.
Dividido entre as angústias do amor e do sexo, que está começando a conhecer.
E a ausência do pai, Nicolas (Vincent Cassel).
Francês, este pai partiu para seu país.
No mesmo dia em que Tony retornava, formado, da capital.
Os dois se cruzaram na estação ferroviária.
Numa despedida breve e traumática.
Pela total ausência de explicações e de notícias depois desse dia.

A tristeza percorre não só Tony.
Mas também sua mãe, Sofia (Ondina Clais Castilho), que parece uma viúva.
De melancolia em melancolia, a vida continua a custo.
Tony procura uma figura paterna alternativa em Paco (Selton Mello).
Um rústico criador de porcos que era amigo do pai.
Dele não extrai uma única informação sobre a partida de Nicolas.
Mas conta com ele para a primeira visita ao bordel da cidade mais próxima.

Há uma dualidade da vida sexual iniciada com prostitutas.
E o flerte comportado com as irmãs Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes).
As meninas da família Madeira.
Um dos aspectos em que o filme respira sua nostalgia.
Sua marca de um tempo passado.
Numa cidade em que o meio de comunicação mais popular ainda é o rádio.
Mesmo o cinema fica em outra cidade.
E, por tudo isso, o tempo parece correr mais lentamente.

Adaptado de Neusa Barbosa (Cineweb)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Crítica Cineweb +++

O veterano diretor de fotografia Walter Carvalho materializa o passado.
Ao banhar muitas dessas imagens de uma luz dourada ou sépia.
Como as velhas fotografias de uma juventude revisitada em filmes como este.
Que manifestam uma inequívoca proximidade com os dramas familiares.
Do período de ouro do cinema italiano.
Nas obras de Ettore Scola e Dino Risi.
Ou mesmo com o cinema francês.
De um François Truffaut da época de seu alter ego, Antoine Doinel.

Há, na linguagem do filme, a procura de uma simplicidade que envolva o espectador.
E a sintonia com uma experiência universal.
Nesse processo que envolve todas as vidas quando desabrocham.
E chegam àquele perigoso ponto em que amadurecer não é só preciso, como inevitável.
Embora, evidentemente, o ponto de vista aqui seja eminentemente masculino.
Com personagens femininas filtradas por sua imaginação.

Adaptado de Neusa Barbosa (Cineweb)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Crítica Cineweb +++

No elenco, há que se destacar uma ponta do escritor Skármeta.
Como o dono do bordel Eseban Copetta.
E o veterano cantor Rolando Boldrin.
Que volta ao cinema depois de duas décadas.
Agora, na pele de um carismático maquinista.
Há o estreante João Prates, intérprete do garoto Augusto Madeira.
Irmão das musas do filme.
E protagonizando sequências no limite do patético.
Em sua ansiedade com sua iniciação sexual.

Adaptado de Neusa Barbosa (Cineweb)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Rolling Stone +++

Existe um paralelo curioso.
Entre "O Filme da Minha Vida" e "O Palhaço".
Longa anterior de Selton Mello.
Em "O Palhaço", o protagonista convive com um pai.
Que parece nunca estar ali.
Agora, o personagem principal depende da saudade de um pai.
Que abandonou a família para buscar sentido na vida.
Quando Mello esteve atrás das câmeras, falou de relações familiares.
Sempre acostumado a roteiros escritos por ele mesmo.
Desta vez, parte das palavras do chileno Antonio Skármeta.
Autor de O Carteiro e o Poeta.
Mello guarda para si um papel coadjuvante.
E elege como protagonista Johnny Massaro.
É a delicadeza da performance do jovem que dá corpo.
A uma discussão sobre ausência, herança e missão.
"O Palhaço" era sobre buscar uma família verdadeira.
"O Filme da Minha Vida" é sobre remontar a ideia de família.

Adaptado de Chico Fireman (Rolling Stone)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Almanaque Virtual +++

Provavelmente quase nada seria exatamente como aconteceu.
Se todo mundo pudesse contar em filme sua história.
Claro, essa é a sua versão e você conta do seu jeito.
Aquele momento mágico do primeiro namoro.
Da viagem para uma outra cidade.
Ou aquela decepção com quem você mais admirava.
E aquela tristeza.
Que você nem quer contar para não ter que lembrar.
Tudo pode estar no filme da sua vida.

Adaptado de Ana Rodrigues (Almanaque Virtual)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Almanaque Virtual +++

Em “O Filme da Minha Vida”, o diretor Selton Mello retoma o lirismo.
De sua obra maior “O Palhaço”.
Com toques de autobiografia.
E conta a história de Tony (Johnny Massaro), um professor.
Este retorna à cidade natal na Serra Gaúcha.
E encontra a mãe, abandonada pelo pai.
Nicolas (Vincent Cassel) voltou para a França.
Com saudade do país de origem.

Tony vai buscar a forma de reconstruir sua história.
No afeto de Luna (Bruna Linzmeyer).
Na sensualidade de Petra (Bia Arantes).
Na amizade de Paco (Selton Mello).
E no carinho da mãe Sofia (Ondina Clais),
Apesar do passado sempre estar rondando.
Uma sala de cinema é o cenário de acontecimentos decisivos.
Que conectam dois pontos da vida do jovem.

Adaptado de Ana Rodrigues (Almanaque Virtual)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Almanaque Virtual +++

O longa baseia-se no livro do chileno Antônio Skármeta.
E revive os anos 60 com fidelidade.
Na reconstituição em cenários, figurinos e trilha sonora.

A música de Sérgio Reis, “Coração de Papel”, se encaixa.
Na figura cheia de desejo e melancolia de Tony.
Que não entende porque o pai foi embora.
E com ele levou o próprio passado do menino.
Que ele tanto quer recuperar.

“Hier Encore”, de Charles Aznavour, também está no longa.
Para embalar falta e arrependimento.

O filme parece um álbum de retrato de uma época ainda muito presente.
Com a saudade de Tony da infância com o pai.

E a fotografia de Walter Carvalho explora a paisagem da Serra Gaúcha.

Adaptado de Ana Rodrigues (Almanaque Virtual)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Almanaque Virtual +++

Selton Mello mostra mais uma vez grande acerto na escalação de atores.
Com Massaro e Cassel em atuações solidamente construídas.
E um elenco feminino impecável.
Além da participação especial afetuosa de Rolando Boldrin.
Como uma espécie de observador
O próprio Selton Mello atua bem, como sempre.
Mas o seu Paco é o personagem com desfecho menos satisfatório.

“O Filme da Minha Vida” é daqueles longas em que todos personagens importam.
Incluindo a pequena trama de um menino que está doido para perder a virgindade.
Um filme que conquista a nossa simpatia e mantém nosso interesse constante.

Adaptado de Ana Rodrigues (Almanaque Virtual)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinemação +++

Na coletiva de imprensa, Selton Mello falou sobre suas inspirações.
Suass sensibilidades como cineasta.
E sobre como se apaixonou instantaneamente pelo livro "Um Pai de Cinema".
De Antonio Skármeta, o renomado autor de "O Carteiro e o Poeta".
"Um Pai de Cinema" obra que dá origem a "O Filme da Minha Vida".
Estrelado por Johnny Massaro, Vincent Cassel e outros grandes talentos.
No evento, algumas coisas ficaram claras.
O apego de Mello pelo livro.
Que possui até um apaixonado prefácio escrito pelo mesmo.
E que a produção é daquelas raras de sintonia entre escritor e diretor.
Onde o diretor tem a liberdade.
Para transmitir espiritualmente as sensações passadas pelo livro.
Dessa forma, é sintomático que "O Filme da Minha Vida" seja um filme de fã.
Uma carta de amor de Mello ao livro.
Enfim, uma idealização romântica daquelas páginas transposta.
Despejada, através das imagens fotografadas de Walter Carvalho, para as telas.
Dito isso, como toda idealização, há uma sobreposição de sentimentalismo.
Que pode ser perigosa do ponto de vista cinematográfico…
E do controle que você tem sobre sua obra.

Adaptado de Cauê Petito (Cinemação)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinemação +++

Serras Gaúchas, 1963.
O jovem Tony Terranova precisa lidar com a ausência do pai.
Este foi embora sem avisar à família.
E, desde então, não deu mais notícias ao filho.
Tony é professor de francês num colégio da cidade.
Convive com os conflitos dos alunos no início da adolescência.
E vive o desabrochar do amor.
Apaixonado por livros e pelos filmes que vê no cinema da cidade grande.
Tony faz do amor, da poesia e do cinema suas grandes razões de viver.
Até que a verdade sobre seu pai começa a vir à tona.
E o obriga a tomar as rédeas de sua vida.

Adaptado de Cauê Petito (Cinemação)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinemação +++

O título "O Filme da Minha Vida" é bem literal quanto às pretensões de Mello.
Ele realiza um trabalho daqueles que reverenciam o cinema enquanto linguagem.
E tem como musa inspiradora a própria sétima arte.
Ambienta-se na mente de seu narrador.
E recebe uma roupagem em tons sépias que escancaram sua natureza fantasiosa.
Quando o Tony de Johnny Massaro observa, extasiado, as garotas da geração beat.
Todas quase pin-ups.
Enraizadas justamente na idealização romântica e arquetípica da época.
E seu personagem literalmente levita.
Numa sequência de sonho cômica mas um tanto óbvia e exagerada.
Até mesmo pela escolha óbvia de música.
Esta cena, possui uma artificialidade.
Seja os figurinos das garotas, na música, ou o próprio exagero da trilha sonora.
E de como a sequência é filmada representando o onírico.
Ela resume eficientemente esta obra.
Que se passa na cabeça de um jovem romântico.
De um poeta incorrigível que transforma sua vida literalmente, num filme.

Essa lógica fabulesca reside nos nomes dos próprios personagens.
Que são diferentes de suas contrapartes no livro.
Tony Terranova é daquelas aliterações quase super-heroicas.
Por um lado essa abordagem é interessante.
Por outro, prejudica o filme.
Por nunca aprofundar todos os seus personagens de fato.
Ainda mais em um filme desses de transição para a vida adulta.
Carregado de reviravoltas dramáticas.
Em que é necessário que nos importemos realmente com aquelas pessoas.
E isso nem sempre acontece com esses arquétipos engessados.
Do jovem solitário, da it girl da escola, do pai ausente…

Adaptado de Cauê Petito (Cinemação)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinemação +++

Isso não quer dizer que os atores não estejam bem em seus papeis.
O Tony de Johnny Massaro passa sentimentos sem mesmo verbalizá-los.
Com uma postura física que escancara sua insegurança.
Seu olhar triste e distante consegue dizer muito mais.
Que as poéticas falas que saem de sua boca.
Essa tristeza contida é partilhada por Sofia, sua mãe.
Vivida por Ondina Clais com uma voz aconchegante.
Mas que esconde anos de dor.
As irmãs Luna e Petra não têm muito o que mostrar.
E são vividas pelas belas e talentosas Bruna Linzmeyer e Bia Arantes.
Servem mais como os já mencionados arquétipos.
Que servem para o “crescimento” do personagem.
O excelente Vincent Cassel não precisa se esforçar muito.
Para atribuir carisma à Nicolas, pai de Tony.
E Selton Mello transforma Paco num dos personagens mais interessantes.
Parte disso vem da própria personalidade de Paco.
Ele parece diferir daquelas pessoas.
Que proferem cada frase como se fosse a mais bela e poética já feita.
A cena na qual Luna conta um sonho que teve para Tony é um exemplo disso.

Adaptado de Cauê Petito (Cinemação)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Filme da Minha Vida - Cinemação +++

O lirismo reflete a idealização de Selton Mello pelo trabalho que adapta.
Este é um filme apaixonado desde o início pela história que quer contar.
Pela obra de Skármeta, por seus personagens.
Mas falta justamente um estofo.
Mais que esta visão plana, mas inegavelmente bela, desta história.
Essa beleza vem na fotografia.
Na trilha orquestrada.
Nos figurinos.
E nas próprias paisagens, filmadas na bela Serra Gaúcha.

É uma pena que Mello esteja tão deslumbrado com a própria história.
Que a conta como se fosse desde já um clássico.
Os trechos do clássico Rio Bravo (1959) se encaixam na narrativa de forma bonita.
Mas também vem acompanhados de uma certa pedância.

Voltando às palavras do próprio Mello, sobre Antonio Skármeta.
Ao se questionar sobre o por quê de o autor o escolher para adaptar a obra:
“Um sonhador reconhece o outro”.

"O Filme da Minha Vida" acaba sendo nada mais do que um filme de fã,
daqueles românticos, repletos de paixão, com uma bela mensagem.
E como a maioria dos apaixonados, deixa-se levar pelas próprias idealizações.
Numa obra que extrapola um conto que já era fabulesco.
Mas, ganha contornos de resolução artificial e “final feliz”.
E acaba por anular qualquer efeito mais dramático.
Que poderia ser extraído de seus personagens.
Estes nunca podem se tornar reais.
Aprisionados nessa realidade de cinema mágica e imaculada.
Mas também artificial que Selton Mello – sonhador – propõe.

Adaptado de Cauê Petito (Cinemação)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Ausente Presente +++

Já faz mais de 10 anos que Selton Mello resolveu se afastar das novelas.
Para, cada vez mais, se dedicar ao cinema.
Inicialmente apenas como ator.
Depois também como diretor.
Teve sucesso em seu segundo filme como realizador, O Palhaço.
E muito se especulou sobre qual seria seu passo seguinte.
Para a surpresa de muitos, ele resolveu se dedicar à TV.
Por dois anos, dirigiu mais de uma centena de episódios da série Sessão de Terapia.
Apenas seis anos depois, Selton retornou ao cinema.
Com "O Filme da Minha Vida".
Conceitualmente, a continuidade natural de seu modo de enxergar a sétima arte.

"O Palhaço" trazia uma bem-vinda delicadeza na abordagem.
Da busca da identidade em meio ao universo mambembe do circo.
Em "O Filme da Minha Vida", outra vez, busca mesclar o lírico e o literal.
A brutalidade e a fantasia.
Com uma pitada de melancolia.
A síntese de tal proposta surge a partir dos contrapontos.
Entre Tony (Johnny Massaro) e Paco (Selton).
Tão antagônicos quanto amigos.
Tony é letrado e sonhador.
Professor de tudo em uma pequena escola em um local ermo.
Paco é pé no chão e rude.
Se agarrando ao dia a dia.
E não vê sentido nem utilidade.
No que permite qualquer tipo de viagem da mente.
Daí sua incompreensão diante do cinema, por exemplo.
A sétima arte, por sinal, tem grande importância dentro da narrativa.
Não só pelo que representa para a alma.
Mas também pelo lado físico de onde é projetada.

Em meio às tais alternâncias, há a melancolia decorrente da ausência.
O retorno do pai de Tony (Vincent Cassel) à França.
Isso abre uma fenda profunda dentro do jovem.
Não só pela saudade mas pelo impacto que tal partida provoca.
Dia após dia.
Há em O Filme da Minha Vida uma forte reverência ao passado.
Seja pela ambientação idealizada situada no sul do Brasil.
Com figurinos típicos dos anos 1960.
Seja pela lembrança constante de uma felicidade que já não existe mais.
Daí vem o tom melancólico em torno do sensível Tony.
E também a rudeza de Paco.
Reações diretas do modo como lidam com fatos marcantes da vida.

Adaptado de Francisco Russo (Adoro Cinema)

Leonardo Brocker disse...

+++ O Ausente Presente +++

Mas nem sempre o lado poético da narrativa é bem desenvolvido.
Há uma certa mão pesada do Selton diretor.
No modo como tais sonhos são representados.
Por vezes, de forma até pretenciosa.
É o caso da sequência lírica em que Tony, literalmente, flutua.
Ela remete diretamente à obra de Fellini, mais exatamente 8 1/2.
Mas soa deslocada dentro da história como um todo.
E, mesmo dentro da própria sequência, não atinge os objetivos lúdicos.
Soa como mero exercício de linguagem.

Além disto, há um incômodo tom brusco.
Na maneira com a qual apresenta certas literalidades.
Especialmente em relação ao personagem de Cassel.
Percebe-se o interesse em provocar a quebra entre sonho e realidade.
Mas a condução muitas vezes soa bastante artificial.
E prejudica o desenvolvimento da própria narrativa.
O ritmo lento da história é repleto de sequências contemplativas.
E frases efêmeras de suposto tom poético.
Isso amplifica uma sensação cada vez maior de gratuidade.
Em torno daquele universo bem retratado e tão mal desenvolvido como narrativa.
É como se houvesse uma beleza estética aliada a conceitos bem definidos.
Só que mal empregados.
Nesta busca constante por uma complexidade emocional.
Jamais entregue de forma fluida e natural.
Isso acaba sendo um tiro no pé em relação à própria história.
De forte tom pessoal.

Diante disto, "O Filme da Minha Vida" transcorre de forma irregular.
Mesmo que Johnny Massaro e Selton Mello cumpram a dualidade dos personagens.
E Bruna Linzmeyer surja mais contida que o habitual.
Há no filme problemas narrativos.
Em parte, decorrentes da ampliação da história de Antonio Skarmeta.
Mas, também, das modificações na trama que, uma vez mais, soam gratuitas.
Problema maior ainda que o conteúdo é a forma com a qual este é apresentado.
E, neste ponto, o Selton diretor apresenta seu filme mais disperso.

Pela ambientação, é possível compreender "O Filme da Minha Vida".
Como um passo seguinte natural após "O Palhaço".
E é necessário também reconhecer o tom poético.
Que soa, em vários momentos, artificial e pouco convincente.
São tantos problemas narrativos e de direção.
Que o filme se sustenta apenas no bom elenco e na bela ambientação de época.

Adaptado de Francisco Russo (Adoro Cinema)

Leonardo Brocker disse...

+++ Diretor, Roteirista, Ator: Os Seltons Não se Encontram +++

Um cineasta pode encontrar dificuldades em ter uma voz própria.
De tanto homenagear e buscar referências.
E as mesmas não se comunicarem entre si,
Não podemos acusar Selton Mello de não ter talento.
Ou de não trabalhar com os melhores profissionais do mercado.
Nada disso seria justo.
Mello entrega seu terceiro longa.
O poético "O Filme da Minha Vida".
E vive novo momento de estabilidade profissional.
Com belos trabalhos como ator paralelos à paixão de realizador.
Sobra paixão em seu novo filme.
E o que se observa são suas inspirações temáticas e imagéticas.
Elas teimam em não ganhar sentido maior que os de uma homenagem.
De um fã maravilhado com seus ídolos.
Alguém talentoso e capaz, mas assolado por tanta informação.
Que o excesso embaça o roteiro escrito com Marcelo Vindicato.
A ânsia era de acertar tantos gols quanto possível.
E contou com os melhores jogadores a disposição.
Para um jogo que termina sem vitória...

Adaptado de Francisco Carbone (Cineplayers)

Leonardo Brocker disse...

+++ Diretor, Roteirista, Ator: Os Seltons Não se Encontram +++

Em "Feliz Natal", a atmosfera amarga de típicas reuniões familiares.
Ela foi claramente abençoada por Lucrécia Martel e seu "O Pântano".
Um projeto de estreia ousado e seguro de si.
Com "O Palhaço", a infância de Selton foi o alvo.
Mas não dá pra negar a influência da inocência de Chaplin e Fellini.
Ficam claras na bela atmosfera desse grande sucesso.
Inclusive de bilheteria.
O novo filme traz é mais um mergulho no cinema italiano.
Tanto Fellini quanto o Tornatore de "Cinema Paradiso" e "Malena".
Numa narrativa que esbanja nostalgia pelo passado.
E a busca por um entendimento particular de nosso crescimento pessoal.
Tanto etário quanto emocional.
Com elementos estéticos que não apenas situam o filme na década de 60.
Onde é passado como tentam promover uma viagem visual para lá.
Selton tecnicamente entrega o prometido ao projeto.
Este almeja nos situar no passado de maneira onírica e delicada.
Com um Walter Carvalho mais uma vez assombrando nas lentes.
Direção de arte, figurinos e a bela trilha incidental de Plínio Profeta.
Isto completa o quadro geral, de alcance indiscutível.

Adaptado de Francisco Carbone (Cineplayers)

Leonardo Brocker disse...

+++ Diretor, Roteirista, Ator: Os Seltons Não se Encontram +++

Os excessos começam a ser observados rapidamente até.
quando se percebe que o corpo de canções ocupara toda extensão do filme.
Por mais lindas que sejam as músicas da Jovem Guarda.
A voz de Charles Aznavour.
E tantas outras
Selton construiu uma atmosfera de imagens, sons, sentidos e delicadeza.
Estas deveriam prescindir a experiência do áudio.
Quase sentimos o filme clamar pelos acordes suaves de "Profeta".
Quando os microfones não param de trabalhar.
O mesmo podemos dizer do trabalho de Walter Carvalho.
Ele ultrapassa o limite da beleza em determinados momentos.
Quando parece chegar no limite de sufocar o todo.
Imerso numa paleta ostensivamente perfeita.
Em enquadramentos tão milimétricos que simplesmente abafam a história.
Uma história que com outras escolhas teria sido muito menos explícita.
E muito mais sentida.
E é aí que percebemos que talvez falte sutileza ao trabalho.

Adaptado de Francisco Carbone (Cineplayers)

Leonardo Brocker disse...

+++ Diretor, Roteirista, Ator: Os Seltons Não se Encontram +++

E aí entra a observação ao roteiro.
Este nos faz atentar para todo esse entorno.
Se o material escrito correspondesse, o filme não fosse tão sufocante.
Em seu filme anterior Selton deixou a poesia correr solta.
Em imagens e pensamentos.
Dessa vez, a fórmula desandou e produziu cenas canhestras.
De estrutura a usar e abusar das metáforas.
E lições entre seus personagens e situações.
Selton verbaliza tudo até esgarçar a narrativa.
Com um sem fim de "poemas" narrados, e explicados.
E se não estiver ainda bem entendido, ele ainda os transforma em imagem.
A vida do protagonista Toni Terranova é observada com os olhos da poesia visual.
E também da forma tradicional.
Até os possíveis momentos de dor são tão esteticamente elaborados.
Que lá pelas tantas as intenções foram esvaziadas.
Por mais beleza e doçura que o filme queira nos arremessar...

Adaptado de Francisco Carbone (Cineplayers)

Leonardo Brocker disse...

+++ Diretor, Roteirista, Ator: Os Seltons Não se Encontram +++

É esse mesmo carinho e talento que salvam o projeto.
Porque ao final, mesmo de maneira exacerbada, sobra talento aos envolvidos.
E nada é mal feito.
Talvez se a atmosfera de sonho atribuída às memórias de Toni forem absorvidas.
Com o mesmo espírito que Selton empregou.
Talvez se o foco de observação for o lado onírico e apenas ele.
E se deixar o trabalho do elenco ser sentido em seus silêncios particulares...
Talvez exale alma.
Dos olhos de Johnny Massaro, saem a vida.
Que é atribuída aos tantos diálogos expositivos.
Dos olhos do ator Selton Mello, saem a sabedoria que faltou ao diretor.
Dos olhos de Bruna Limzmeyer, saem a inocência e a doçura tão obsessivamente procurada.
Por fim, dos olhos de Martha Nowill, sai a real poesia.
A real beleza e o real encantamento que o filme nos propõe.
O diretor Selton Mello poderia ter um filme menos bonito para dentro.
Porém muito mais bonito para fora.
Se tivesse mergulhado ainda mais nesses olhares...

Adaptado de Francisco Carbone (Cineplayers)

Leonardo Brocker disse...

O Filme da Minha Vida (Veja)

Selton Mello volta para trás das câmeras.
Depois de Feliz Natal (2008) e O Palhaço (2011).
Agora, dirige "O Filme da Minha Vida".
Inspirado no livro Um Pai de Cinema.
Do chileno Antonio Skármeta.
O longa tem produção de época caprichada da década de 60.
E deslumbrante fotografia de Walter Carvalho.
Seu requinte visual emoldura uma bela história familiar.
De encontros e desencontros.
Tony Terranova (Johnny Massaro) é um jovem professor.
Volta à sua pequena cidade no interior gaúcho.
E descobre que seu pai (Vincent Cassel) abandonou a mãe.
E retornou para a França, seu país de origem.
Tony apaixona-se pela melhor amiga (Bruna Linzmeyer).
E desabafa angústias com o grosseiro criador de porcos Paco (Mello).
A narrativa titubeia na meia hora inicial.
Entre o drama, o romance juvenil e o humor.
E deslancha levemente a partir de uma revelação surpreendente.
Atração à parte, a maravilhosa trilha sonora.
Vai de Nina Simone e Charles Aznavour a Sérgio Reis.
Quando está em cena, Selton Mello/Paco é um gigante imbatível.
Com suas tiradas irônicas.
Como realizador, tem uma sensibilidade artística de repertório apurado.

Adaptado de Miguel Barbieri Jr. (Veja)

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