terça-feira, 13 de setembro de 2016

Os Filmes Estrangeiros no Festival de Cinema de Gramado de 2016

O Festival de Cinema de Gramado passou a exibir filmes estrangeiros, em 1991. Em 2016, assisti a filmes da competição e da mostra paralela. Alguns no Palácio dos Festivais, outros no Teatro Elisabeth Rosenfeld.

Logia Cisneros em 'Campaña Antiargentina', de Ale Parysow
Logia Cisneros em 'Campaña Antiargentina'


Sessão Sundance
O ano de 2016 marcou o início da parceria do Festival de Gramado com o Sundance Festival. E Gramado exibiu dois filmes. Daqueles que saímos do cinema sem entender. Sem identificar uma mensagem clara.


“Mammal”
Homem procura antiga esposa, em busca de filho que desapareceu. E com a notícia da notícia da morte do rapaz, ela adota um delinquente juvenil. Seria uma tentativa de aplacar a dor pela morte do filho que ela rejeitou.

'Mammal', de Rebecca Daly (2016)
'Mammal', de Rebecca Daly (2016)

O filme mostra as relações da mulher com o antigo marido e o delinquente. Há o momento em que os três se encontram. Contudo, o comportamento irracional dos personagens não parece levar a um desfecho claro...

Rachel Griffiths (Margaret), em 'Mammal', de Rebecca Daly (2016)
Rachel Griffiths (Margaret), em 'Mammal'


“The Fits”
Toni, uma menina negra abandona os treinos de boxe e inicia as aulas de dança. Pouco a pouco, as alunas apresentam desmaios e ataques. A suspeita de a água ser a responsável pelos episódios não se confirma...

'The Fits', de Anna Rose Holmer (2015)
'The Fits', de Anna Rose Holmer

Parecia um filme promissor. Passa-se numa comunidade negra. Toni deixa o núcleo masculino e insere-se no feminino. Iniciam-se os ataques. Porém, o filme acaba sem uma explicação clara para os estranhos episódios...

Royalty Hightower (Toni) em 'The Fits', de Anna Rose Holmer
Royalty Hightower (Toni) em 'The Fits'



Sessão Especial
Vi a dois filmes na Sessão Especial. No post anterior, falei de “Cromossomo 21”. Registro minha impressão sobre “Assistência Domiciliar”. Pela primeira vez o Festival de Cinema de Gramado exibiu um filme tcheco.


“Assistência Domiciliar”
Vlasta é uma enfermeira. Presta assistência domiciliar. E vive para a família e para os pacientes. Até descobrir o câncer e receber o prognóstico de seis meses de vida. Sem amparo na medicina tradicional, busca alternativas.

'Assistência Domiciliar', de Slávek Horák (2015)
'Assistência Domiciliar' (2015)

O filme teria todos os ingredientes de uma tragédia. São diversos, porém, os momentos cômicos. Sem falar das cenas que ilustram a cultura tcheca. A cultura de um país não dispõe da mídia de outras nações europeias.

Tatiana Vilhelmová (Hanácková) e Alena Mihulová (Vlasta) em 'Assistência Domiciliar'
Tatiana Vilhelmová (Hanácková) e
Alena Mihulová (Vlasta)



Longas-metragens Estrangeiros
Assisti a três dos sete filmes participantes da mostra competitiva. Entre eles, “Guaraní” o melhor filme do Festival de Cinema de Gramado de 2016. Detalhe: este foi o filme que menos agradou dentre os que assisti...


“Campaña Antiargentina”
Leo J, ator e cantor, recebe uma casa de herança. Lá encontra documentos sobre a campanha anti-Argentina. A conspiração surgiu na “Logia Cisneros”, grupo maçônico. E levou a dramáticos eventos com ídolos populares.

'Campaña Antiargentina', de Ale Parysow (2015)
'Campaña Antiargentina' (2015)

A comédia foi o estrangeiro que mais me agradou. Já no início, analisa-se o suposto atentado que levou à morte de Carlos Gardel. Seguem teorias sobre Evita Perón, Diego Armando Maradona, Lionel Messi, o papa...

Juan Gil Navarro (Leo J), em Campaña Antiargentina
Juan Gil Navarro interpreta o cantor e ator Leo J


“Carga Sellada”
Um maquinista conduz o trem, pelo planalto boliviano. Leva quatro policiais, uma passageira clandestina. E uma carga que mudará a vida de todos os personagens. Coprodução de Bolívia, México, Venezuela e França.

'Carga Sellada', de Julia Vargas (2015)
'Carga Sellada', de Julia Vargas

Uma história interessante em um cenário interessante. O conflito de policiais e civis possui claro conteúdo político-ideológico. O pano de fundo, porém, é o impacto ambiental, que norteia as atitudes de ambos os lados.

Gustavo Sanchez Parra em 'Carga Sellada' (2015)
Gustavo Sanchez Parra em 'Carga Sellada'


“Guaraní”
Atílio é um pescador paraguaio. O sonho é ter um neto. E transmitir a ele a cultura guarani. Quando descobre que a filha Helena está grávida de um menino, segue a Buenos Aires com Iara, a neta.

'Guaraní', de Luis Zorraquin (2015)
'Guaraní', de Luis Zorraquin

Coprodução de Paraguai e Argentina. O filme tem forte apelo emocional. De Atílio com o guarani. Ele recusou-se a aprender o espanhol. E de Atílio com Iara, a companheira involuntária de viagem.

Emilio Barreto (Atílio) e Jazmin Bogarin (Iara), em 'Guarani'
Emilio Barreto (Atílio) e Jazmin Bogarin (Iara)

Veja também...

18 comentários:

Leonardo Brocker disse...

+++ Vencedores do Festival de Cinema de Gramado 2016 +++

Longa-Metragem Estrangeiro
+ Melhor Fotografia: Andrés Garcés, por "Sin Norte";
+ Melhor Roteiro: Luis Zorraquín e Simón Franco, por "Guaraní";
+ Melhor Atriz: Verónica Perrotta, em "Las Toninas Van al Este";
+ Melhor Ator: Emilio Barreto, em "Guaraní";
+ Melhor Direção: Fernando Lavanderos, por "Sin Norte";
+ Melhor Filme: Luis Zorraquí, por "Guaraní".

Prêmio Especial do Júri de Longa Estrangeiro:
"Esteros", pela direção da história de amor dos atores mirins

Júri da Crítica - Melhor Filme: Fernando Lavanderos, por "Sin Norte";
Júri Popular - Melhor Filme: Papu Curotto, por "Esteros".

Leonardo Brocker disse...

+++ "Mammal" (2016) +++

História de Margaret, uma mulher que perde o filho.
E desenvolve uma relação pouco ortodoxa com um jovem sem-teto.
Sua confiança provisória é ameaçada.
Pelo envolvimento do jovem com uma violenta gangue.
E pela escalada do ex-marido em um luto de raiva.

Duração: 1h36min
Diretor: Rebecca Daly
Roteiro: Rebecca Daly, Glenn Montgomery
País: Irlanda, Países Baixos, Luxemburgo

Elenco
+ Rachel Griffiths (Margaret);
+ Michael McElhatton (Matt);
+ Barry Keoghan (Joe);
+ Nika McGuigan (Ann Marie).

Leonardo Brocker disse...

+++ "Mammal" - Rachel Griffiths +++

A atriz nasceu em Melbourne, Austrália, em 18/12/1968.
Participou de mais de trinta longas-metragens para o cinema.
Dentre estes filmes, podemos destacar os seguintes:

1994 - "O Casamento de Muriel", com Toni Collette
1996 - "Cosi", com Toni Collette
1996 - "Paixão Proibida", com Kate Winslet
1997 - "O Casamento do Meu Melhor Amigo", com Julia Roberts, Cameron Diaz
1998 - "Hilary e Jackie", com Emily Watson
2001 - "Profissão de Risco", com Johnny Depp, Penélope Cruz
2002 - "Desafio do Destino", com Dennis Quaid
2002 - "O Grande Roubo", com Guy Pearce
2003 - "Ned Kelly", com Heath Ledger, Naomi Watts
2013 - "Walt nos Bastidores de Mary Poppins', com Emma Thompson, Tom Hanks
2016 - "Até o Último Homem", de Mel Gibson

Leonardo Brocker disse...

+++ "Mammal" - Opinião da Crítica +++

Aborda a vida de personagens solitários cujas vidas se cruzam.
Margaret abandonou o filho quando pequeno e hoje vive sozinha.
Matt, o ex-marido, sofre com a perda do filho na adolescência.
Ann Marie, a vizinha, não tem ajuda para cuidar do bebê.
Isso após o marido a abandonar.
Por fim, Joe é um garoto negligenciado pela mãe.
E passa a cometer crimes numa gangue de rua.
A ideia é aproximar estas pessoas muito diferentes.
Até começarem a fornecer um pouco de carinho umas às outras.

O procedimento não é exatamente inovador.
E parte de uma premissa um tanto forçada.
Margaret descobre que o filho abandonado faleceu.
Então, adota Joe como filho simbólico .
E passa a desenvolver o instinto materno que nunca teve.
Todos os conflitos parecem envolver relações familiares.
E isso também pode soar esquemático.
Mesmo assim, "Mammal" consegue levar o drama a caminhos inesperados.
A relação entre a mulher e o garoto envolve carinho, amizade e desejo sexual.

A diretora Rebecca Daly constrói uma obra dura.
As luzes são naturais, a câmera na mão, seguindo os personagens.
Isso imprime a sensação de imediatismo
E a ausência de trilha sonora impede os floreios estéticos ou o sentimentalismo.

Rachel Griffiths apresenta bom trabalho de composição.
Sem exagerar nos gestos nem vilanizar a mulher que abandonou a família.
Barry Keoghan é eficaz como o encrenqueiro que descobre a vida adulta.
E os questionamentos morais garantem a tensão de que o roteiro precisa.

O próprio título merece questionamento.
“Mamífero” diria respeito aos instintos grupais dos seres humanos?
Aos seus instintos sexuais, ou à necessidade de proteção?
Sugere-se uma explicação biológica a comportamentos socioculturais?

"Mammal" é um filme calculadamente pequeno e discreto.
Mas chama a atenção para o belo controle narrativo da diretora.

Adaptado da crítica de Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema.

Leonardo Brocker disse...

+++ "The Fits" (2015) +++

"The Fits" é um retrato psicológico de Toni.
Uma menina de onze aos de idade, de Cincinnati.
Treina em um ginásio de boxe, como um moleque.
Mas procura a aceitação das outras meninas.
Assim, veste uma malha apertada.
E ingressa na equipe de dança.

Toni tem uma grande motivação.
O poder e a confiança das meninas da equipe.
Ansiosamente, Toni, absorve as rotinas.
E até mesmo perfura as orelhas para usar brincos.
Mas um surto misterioso de desmaios atinge a equipe.
E o desejo de aceitação se modifica....

País: EUA
Duração: 1h12min
Direção: Anna Rose Holmer
Roteiro: Saela Davis, Anna Rose Holmer, Lisa Kjerulff

Elenco
+ Royalty Hightower (Toni);
+ Alexis Neblett (Beezy);
+ Makyla Burnam (Legs);
+ Da'Sean Minor (Jermaine);
+ Lauren Gibson (Maia);
+ Antonio A.B. Grant Jr. (Donté);
+ Inayah Rodgers (Karisma).

Leonardo Brocker disse...

+++ "The Fits" - Recepção da Crítica +++

Após a estréia, "The Fits" recebeu críticas em sua maioria positivas.
David Rooney escreveu para The Hollywood Reporter.
Considerou-o "um primeiro longa cativante".
Da mesma forma, escreveu um crítico para a Variety.
Definiu o filme "The Fits" como uma "estréia promissora".
Todos elogiaram o "meticuloso humor de isolamento psicológico".
E o "mistério sedutor" de "The Fits".

Leonardo Brocker disse...

+++ "The Fits" - Comentário de Um Espectador +++

"The Fits" (2015) traz a história de Toni, uma menina de 11 anos.
No início do filme, vemos Toni fazendo flexões.
E treinando num ginásio de boxe com o irmão mais velho.
Depois, ela observa o treino de uma equipe de dança.
E fica claro que Toni quer se juntar a ela.
O irmão a incentiva.
E Toni está prestes a entrar em um mundo totalmente novo...

"The Fits" é o longa de estreia da diretora e roteirista Anna Rosa Holmer.
E ela escolhe temas conhecidos: adolescência, aceitação social.
Mas faz isso de uma forma única: foca numa menina de 11 anos.
E nós a vemos enquanto ela tenta encontrar um caminho.
Não há diálogos a comentar nos primeiro 20-25 minutos de filme.
Deciframos tudo a partir das expressões faciais e corporais de Toni.

Mencionei que todo elenco deste filme é de afro-americanos?
Curiosamente, Anna Rosa Holmer não o é.
O filme se passa inteiramente no bairro de West End, em Cincinnati.
A maior parte, no Centro Comunitário Lincoln.
Também notei que o filme foi apresentado na Bienal de Veneza.
Sim, no famoso festival de artes.

"The Fits" é um comentário abstrato, mas muito real sobre uma jovem.
Ela lida com a aceitação social e com os desafios relacionados.

O filme estreou recentemente no teatro local aqui em Cincinnati.
A sessão estava lotada, para minha grande (mas agradável) surpresa.
O fato de que o filme foi rodado aqui certamente ajudou.
Também surpreendeu ver quantas crianças e jovens estavam na platéia.

Talvez o tempo de execução curto do filme seja curto.
Mas se você está em dúvida, por favor, assista.
Você vai me agradecer mais tarde...

Adaptado da revisão de Paul Allaer (Cincinnati), do site IMDB.

Leonardo Brocker disse...

+++ Assistência Domiciliar (2015) +++

Vlasta é uma enfermeira pessoal.
E vive para o marido, a filha e os pacientes.
Então, um dia, as coisas mudam.
Vlasta passa a ter problemas de saúde.
Vê-se forçada a enfrentar a própria mortalidade.
E percebe que poderá precisar de alguns cuidados.
No entanto, a medicina tradicional não é capaz de curá-la.
Vlasta precisa deixar a zona de conforto.
E começa a se abrir a formas alternativas de tratamento.
Drama e comédia entrelaçam-se nesse processo.

Duração: 1h32min
Direção: Slávek Horák
Roteiro: Slávek Horák
País: República Tcheca, Eslováquia

Elenco:
+ Alena Mihulová (Vlasta);
+ Bolek Polívka (Láda);
+ Tatiana Vilhelmová (Hanácková);
+ Zuzana Krónerová (Miriam).

Leonardo Brocker disse...

+++ "Assistência Domiciliar" - Opinião de Usuário IMDB +++

Vlasta expressa a preocupação com os ovários da filha rebelde.
Fala para ela sobre a propensão a infecções urinárias.
A enfermeira aborda as questões diante do namorado da jovem.
E parece perpetuamente distraída com a felicidade dos outros.

Quando não se preocupa com a família, lida com a teimosia dos pacientes.
Eles ignoram os conselhos de Vlasta.
Ou se recusam a reconhecer por que ela está em suas casas.
Um episódio marcante é a cena com o embriagado sr Hlavica.
Ele luta com Vlasta quando ela tenta colocá-lo em uma banheira.
Depois, tranca a enfermeira no banheiro.

Para piorar a situação, Vlasta gasta mais do ganha.
Os custos com transporte superam o que ganha pelos atendimentos.
Isso obriga a retornar, ocasionalmente, a pé para casa.
Algumas vezes, abaixo de chuva.

Certo dia, Vlasta perde o último ônibus de volta para a casa.
Caminha na escuridão, abaixo de chuva.
E, finalmente aceita uma carona em uma motocicleta.
Sofre um acidente e acaba em um hospital.
Lá, retiram um pedaço da lanterna da moto do abdômen dela.
E o médico informa que ela tem metástases de um câncer pancreático.
O prognóstico é de cinco a sete meses de vida.

As interações complementares evocam pena ou tristeza.
Isso ajuda a aumentar a tragédia de Vlasta.
Os médicos tiram-lhe as esperanças.
Curiosamente, ela supera a própria derrota mental.
E inicia uma grande mudança.
Algumas cenas são quase cômicas.
Mas há inegável sentimento sob as desgraças melodramáticos.

A personagem torna-se introspectiva e examina alternativas.
Como espiritualidade, medicina holística, remédios caseiros.
Além de um reavivamento do romance com o marido.
Surgem preocupações, pensamentos de traição e culpa.
E inúmeras outras formas de negação.
Todas buscam combater a calamidade iminente.

A atuação de Mihulova é o grande triunfo.
Ela encarna o papel de uma mulher com uma doença terminal.
E parece genuína em sua determinação, compaixão, raiva.
Até, finalmente, abraçar a mortalidade.

Apesar do conteúdo sombrio, é um filme comovente e humano.
E o final é uma realização artística monumental.
Surpreendentemente corajoso por sua satisfatória ambiguidade.

Leonardo Brocker disse...

+++ "Assistência Domiciliar" - Opinião da Crítica +++

"Assistência Domiciliar" é um drama sobre medicina.
“O foco está no embate entre a medicina tradicional e a alternativa”.
Assim, disse a cônsul da Republica Tcheca, no Festival de Cinema de Gramado.
Ela comentou que aquela seria primeira exibição de um filme tcheco no evento.

A protagonista do filme é uma enfermeira de uma pequena cidade tcheca.
Ela atende os pacientes em seus domicílios.
Sem dispor de automóvel, enfrenta chuva, sol forte, longas caminhadas.

Um dia, um acidente na garupa de uma moto a levará para o hospital.
E revelará que ela tem uma doença terminal.
A medicina tradicional lhe dá seis meses de vida.
A medicina alternativa promete curar sua alma.

Tais temas recebem de Slávek Horák tratamento original, lacunar, denso.
E com pitadas de humor.

Adaptado de Almanakito da Rosário

Leonardo Brocker disse...

+++ "Assistência Domiciliar" - Opinião da Crítica +++

O cinema da República Tcheca raramente figura em telas brasileiras.
Mesmo sendo reconhecido pela pluralidade de produções realizadas todos os anos.
E, no passado, nominado como a Hollywood europeia.
E exaltado pela Nouvelle Vague Tcheca.
Esta que nos apresentou o cineasta Milos Forman.

Um dos maiores êxitos internacionais foi "Kolya: Uma Lição de Amor" (1996).
O filme venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro há duas décadas.
Slávek Horák foi assistente do diretor Jan Sverák naquela produção.
E aparece agora como ator, roteirista e diretor no simpático "Assistência Domiciliar".
Este, assim como Kolya, é uma comédia dramática inspirada e cativante.

O filme representou o país na disputa pelo Oscar 2016.
E apresenta Vlasta, cuidadora de idosos e outros enfermos em suas casas.
Apoia-se no tratamento dos doentes pela farmacologia e a medicina.
Mas vê suas crenças nas ciências caírem por terra.
Quando descobrem um câncer metastático em seu pâncreas.

Tem apenas cinco meses de vida.
E nenhuma expectativa de tratamento além de remédios para disfarçar a dor.
Vlasta decide buscar curas alternativas para sua condição física.
Sem perceber que aquela que carece de maiores cuidados é sua alma.

"Assistência Domiciliar" apresenta essa dualidade entre fé e ciência.
De forma ora maniqueísta, ora doutrinadora.
O filme retrata tendenciosamente a relação ambígua da protagonista e sua cura.
É melhor sucedido na representação da mortalidade.
E da dificuldade de aceitar que tudo tem um fim.

A abordagem temática é dura: câncer, velhice, doenças e morte.
E o filme é feliz em apresentá-la com leveza e bom humor.
Alena Mihulová brilha especialmente ao lado de Bolek Polívka.

A jornada de autoconhecimento de Vlasta é amplificada na amizade com Mlada.
Filha de um de seus pacientes, ela é uma mulher sensível.
E desafia a enfermeira racional a explorar sua espiritualidade.

"Assistência Domiciliar" encara fases de tristeza, negação, raiva e aceitação.
Mas a ação é emocionalmente honesta e favorecida pela abordagem rítmica e agridoce.
Mesmo sendo um filme sobre doenças, ele projeta a afirmação da vida.

Horák, aqui em seu primeiro filme, explora o máximo de seus atores.
Eles aproveitam, da melhor forma possível, os diálogos concisos do cineasta
Méritos à parte para a passagem onírica entre Vlada e um pequeno veado.
E à sequência, na qual decide distinguir a materialidade física do que há em seu interior.

Horák egressou da publicidade. E abdonou alguns convencionalismos das “dramédias”.
Assim, narrou uma história autêntica e pessoal.
Inspirou-se nas vivências da própria mãe, enfermeira de cuidados a domicílio.
E filmou em sua cidade de origem, Zlin. E na casa e no vinhedo de seus pais.
Tais escolhas tornaram a credibilidade desse universo ainda mais profunda.
A fotografia de Jan Stastný complementa a atmosfera íntima.
E potencializa este pequeno e emocional conto.
Ele termina emotivo no belo e demorado plano de uma cadeira vazia.

Adaptado da crítica de Wallace Andrioli, do site Papo de Cinema.

Leonardo Brocker disse...

+++ "Assistência Domiciliar" - Opinião da Crítica +++

O jovem diretor Slávek Horák demonstra domínio do ritmo cômico.
Com cenas naturalistas, sem recursos fáceis para despertar o riso.
Investe no humor patético e cartunesco.
Um paciente a tranca Vlasta no banheiro.
Logo após fugir, encontra-se na rua, e começa a chover.
Com os olhos arregalados e expressão trágica, caminha até sua casa.
Outras cenas do tipo, envolvem cemitérios e pianos.
E também são bastante divertidas.

É uma pena que a história mude radicalmente de rumo.
Isso ocorre quando a enfermeira se descobre doente.
Não basta estar doente.
Ela tem um câncer tão avançado que lhe sobram poucos meses de vida.

A reviravolta abre os olhos da cética protagonista a alternativas de cura.
Através de calor das mãos, amor próprio, meditação e urinoterapia.
E o filme passa a atacar radicalmente a medicina tradicional.
Não se enxerga os tratamentos alternativos como complementares.
Mas como ferramenta que dispensa toda a alopatia.
O posicionamento pode soar irresponsável.
Mas trata-se da defesa pessoal do autor.

O problema é que "Assistência Domiciliar" muda mais uma vez de ângulo.
Subitamente, Vlasta descobre que os tratamentos alternativos não bastam.
Contanto que ela não ame a si própria e não coloque o casamento nos eixos.
A cura para o câncer, portanto, depende da compreensão de si mesma.
Em nenhum momento se fala em possível psicoterapia.
O caminho deve ser feito por ela, sozinha.
O filme passa por essas transformações com tiradas espirituosas.
Mas de modo brusco.

Por fim, a obra tcheca não consegue esconder o teor de autoajuda.
Todo o imbróglio de curas e crises serve para dizer ao espectador que:
Se não cuidar de seus próprios sentimentos, o corpo e a alma sofrerão.
O filme busca convencer pelo viés emocional e chantagista.
Ao invés da argumentação racional.

Ao menos, o discurso é embalado em cenas bem filmadas.
De ritmo preciso, com personagens de fácil identificação.
'Assistência Domiciliar" desce como um remédio pouco eficaz, mas de gosto agradável.

Adaptado da crítica de Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema.

Leonardo Brocker disse...

+++ "Campaña Antiargentina" (2015) +++

Leo J, ator e cantor, recebe de herança uma casa antiga.
Nela, mexendo entre trastes velhos, encontra documentos.
Os documentos dão detalhes sobre a "Campaña Antiargentina".
A saber, uma suposta conspiração contra a pátria de Leo J.

A conspiração surgiu com o nascimento da nação argentina.
A partir da "Logia Cisneros", um grupo maçônico.
E desencadeou uma série de dramáticos eventos.
Estes envolveram renomadas personalidades e ídolos populares.

A partir daí, Leo J decide seguir o legado familiar.
E produzir um documentário chamado "Campanha Antiargentina".
A ideia é trazer ao público suas descobertas.
Ao se envolver, Leo J sofre as consequências desse complô.

Trata-se de uma comédia azeda, de atmosfera conspiro-paranoica.
O filme intercala materiais de arquivo com cenas de ficção.
Assim, "Campaña Antiargentina" aproxima pessoas tão distintas.
É o caso de Carlos Gardel e Diego Armando Maradona.

Sem dúvida, uma obra peculiar.
Com notas sobre a idiossincrasia argentina.
E, é claro, todas as suas eternas contradições...

País: Argentina
Duração: 1h45min
Diretor: Alejandro Parysow
Roteiro: Pablo Marchetti, Alejandro Parysow

Elenco
+ Juan Gil Navarro (Leonardo Jaramillo);
+ Valeria Correa (Julieta);
+ Daniel Melingo;
+ Carlos Rivkin;
+ Paco Gorriz.

Leonardo Brocker disse...

+++ "Campaña Antiargentina" - Opinião da Crítica +++

Por onde começar?
Bom, existe uma campanha contra a Argentina.
Ela é liderada por um misterioso grupo maçônico.
Foram eles que mataram Carlos Gardel, Evita Perón.
E estão de olho em Ricardo Darín.
Impediram que Maradona jogasse uma partida na Copa de 1978.
E só deixaram um argentino se tornar para não chamar a atenção.
Mas o papa Francisco também corre riscos...

O que ganham com isso?
De onde vem tamanho ódio?
De que maneira efetuaram os crimes?
Pouco importa.

Essa é a teoria maluca de um personagem ainda mais estúpido.
Leo J. é um famoso cantor e ator,
Sem nenhum talento, mas querido pelo público adolescente.
Ele herda uma casa.
E descobre nas ruínas documentos sobre sua família.
Ela está envolvida na luta contra os supostos maçons assassinos.
E Leo J. decide fazer um filme para comprovar a conspiração.

Pode parecer confuso.
Mas isso é apenas o começo de "Campaña Antiargentina".
Entram em cena ilustrações com Playmobils.
Imagens de arquivo e depoimentos de especialistas.
Trechos dos filmes de Leo J., canções dele e do filme.
Muitas caretas, gafes, momentos de paranoia.
Pistas sombrias, fitas secretas, sexo e tentativas de assassinato.

O artista contrata um cinegrafista amador para filmá-lo.
De modo que o filme possa alternar três tipos de imagens.
As do diretor Alejandro Parysow.
As do personagem, o cinegrafista amador.
E outras, em ângulos improváveis, captadas por possíveis espiões.

A comédia não faz o menor sentido.
E avança com a velocidade e a convicção de quem sabe o que diz.
Nenhuma ideia permanece em tela por mais de cinco segundos.
Até ser substituída por outro registro, outra locação, novos personagens.
Ah, sim, com direito a idas e vindas no tempo...

O roteiro parece escrito por pessoas em viagem de alucinógenos.
E o filme editado de acordo com os mesmos princípios.
Seria o humor previsto para a época vertiginosa dos vídeos no YouTube?

As referências pop e a lógica do excesso podem fazer sucesso com o jovem.
Mas é difícil extrair qualquer raciocínio minimamente coerente desta história.
Parysow parece feliz demais com a sua estrutura caótica.
Mesmo no desfecho, o filme aponta para várias saídas possíveis.
E depois da cena final, vem um momento pós-créditos.
E depois mais um, com uma canção longuíssima.
E imagens antigas de dançarinas de cabaré.

"Campaña Antiargentina" é um filme do “tudo ao mesmo tempo agora”.
Acredita que cria uma identidade nacional argentina.
E ela se esconde na multiplicação de citações a personalidades locais.
E na justaposição incompreensível de imagens.
É uma grande bobagem.
Mas que acredita ser engraçada, perspicaz e inovadora.

Adaptado da crítica de Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema.

Leonardo Brocker disse...

+++ "Carga Sellada" (2015) +++

Descobre-se uma carga maldita, misteriosa.
Uma carga de minerais supostamente tóxicos.
O governo logo designa um experiente capitão da polícia.
Em uma missão secreta para se livrar dos objetos.

O material segue em um trem a cargo de um maquinista.
Nele, estão quatro policiais e uma passageira clandestina.
Seria uma imprevista aventura pelo planalto boliviano.
Mas os contratempos podem transformá-la em tragédia...

A imprensa logo divulga o transporte da misteriosa carga.
Isso deixa a população do local em estado de alerta.
Sucedem-se os ataques de moradores enfurecidos.
Traições e desenganos mudam o rumo de suas vidas.
E afetam todo um país.

País: Bolívia, México, Venezuela, França
Duração: 1h47min
Direção: Júlia Vargas Weise
Roteiro: Juan Claudio Lechin, Júlia Vargas Weise

Elenco
+ Gustavo Sánchez Parra (Mariscal);
+ Gonzalo Cubero (Cuellar);
+ Luis Bredow (Agustin Klinger);
+ Daniela Lema (Tania Tintaya);
+ Fernando Arze (Antonio Urdimala);
+ Marcelo Nina (Choque);
+ Jorge Hidalgo (Damián);
+ Prakriti Maduro (Nena);
+ Agar Delos (Mamá Mariscal);
+ Hugo Francisquini (Ibarra).

Leonardo Brocker disse...

+++ "Carga Sellada" - Opinião da Crítica +++

Um trem fretado pelo governo recebe ordens.
Deve entregar uma carga misteriosa na fronteira da Bolívia.
Os policiais encarregados não sabem exatamente do que se trata.
Mas a mídia especula que sejam minerais tóxicos.
Eles poderiam contaminar o ar e a terra.

Os policiais partem à surdina.
E começam a enfrentar a ira dos moradores.
Estes desafiam a autoridade do grupo, sabotando a viagem.
Arrancam, bloqueiam e incendeiam os trilhos.
E o trem faz voltas e mais voltas, parecendo nunca sair do lugar.

O início deste filme pode causar estranhamento.
A diretora apresenta os personagens como numa telenovela.
Há o major vilão, a esposa troféu, o maquinista desacreditado.
Júlia Vargas usa imagens em cores saturadas e muitos closes.
E parece construir os estereótipos para os desconstruir depois.
Isso porque, ao longo do percurso, cada tipo começa a se alterar.
Laços de amizade se formam e os personagens se humanizam.

A narrativa gera uma sensação de absurdo um tanto kafkaiano.
O trem vai para todas as cidades, depois faz meia volta.
E percorre os mesmos bairros.
Os moradores atacam o veículo.
Sem nenhuma subserviência à autoridade policial.

A trama desconstrói a noção de hierarquia.
Dentro do trem, as ordens do major passam a valer cada vez menos
Lá fora, o povo percebe que, unido, pode impedir a passagem da carga.
Nenhuma autoridade explica o conteúdo das caixas seladas.
Nem assume a responsabilidade pelo trajeto
Assim, os personagens ficam presos.
E percebem a artificialidade das estruturas de poder que os sustentam.

Há, assim, uma alma contestadora neste episódio da história boliviana.
Através do trajeto errante, o roteiro consegue unir vários pontos do país.
Juntam-se em um único descontentamento contra o governo autoritário.

Aos poucos, os policiais também perdem a fé na própria tarefa.
E passam a se identificar com os moradores que os rechaçam.
Dentro do trem, cria-se uma atmosfera de família.
Revolucionários (o maquinista) e conservadores (o major) unem-se.
A metáfora da união do povo como única forma de progresso é clara.

"Carga Sellada" reúne símbolos bem orquestrados.
No entanto, sofre com diversos problemas de produção.
A fotografia nas cenas dentro das casas é muito fraca.
Melhorando nas cenas de dentro do trem.
A captação do som direto tem deficiências.
Os grandes planos da paisagem são particularmente mal editados.
E duas cenas de morte ganham uma decupagem frágil.
Trata-se de uma obra de recursos limitados.
E comandada por uma equipe ainda pouco experiente.
Mas existe ousadia no filme.
Tanto em termos ideológicos quanto narrativos.
E isso supera os pontos fracos do percurso.

Adaptado da crítica de Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema.

Leonardo Brocker disse...

+++ "Guaraní" (2015) +++

Atílio é paraguaio e pescador.
Vive com algumas filhas e a neta Iara, à beira do rio.
O maior sonho de Atílio é ter um neto homem.
E transmitir a ele a cultura e o idioma guarani.
E também, os segredos de sua arte, a pesca.

Helena é filha de Atílio e mãe de Iara.
Mora em Buenos Aires, a 1.100 km de distância.
Em uma carta, ele descobre que Helena está grávida.
E que ela será a mãe de menino.

Atílio toma uma atitude corajosa: decide buscar Helena.
O pescador pretende convencer a filha a dar à luz em casa.
E sua esperança é que o neto nasça em terras paraguaias.
Iara torna-se uma acompanhante involuntária nessa travessia.

País: Paraguai, Argentina
Duração: 1h25min
Direção: Luis Zorraquín
Roteiro: Luis Zorraquín, Simón Franco

Elenco
+ Emilio Barreto (Atilio);
+ Jazmin Bogarin (Iara);
+ Hebe Duarte (Lilian).

Leonardo Brocker disse...

+++ "Guaraní" - Opinião da Crítica +++

Atilio é um pescador paraguaio.
Chefe de uma família formada apenas por mulheres.
Este homem de valores tradicionais se recusa a falar espanhol.
Mantém a língua guarani de suas origens.
E força os demais a se comunicarem da mesma maneira.

Descobre que uma filha, moradora de Buenos Aires, terá um filho.
E leva a neta Iara num longo trajeto até o país vizinho.
Para convencer a filha a ter o parto no Paraguai.

O drama funciona através da oposição entre modernidade e tradição.
A neta é fã de punk rock e de camisetas bordadas.
E representa a nova geração aberta ao resto do mundo.
O avô, pelo contrário, mantém um barco antigo durante décadas.
E come apenas alimentos da terra.

A trama de "Guaraní" insere a dupla de opostos num road movie.
Combina rios, trens, ônibus e carros até a chegada na Argentina.
O trajeto proposto pelo diretor Luis Zorraquín é claro.
Vai do rural ao urbano. Do local ao global.

Uma vantagem é evitar a defesa de um polo em detrimento do outro.
O roteiro compreende as motivações de cada personagem.
E deixa que as brigas de Atilio e Iara evidenciem as diferenças.
Os confrontos entre eles são simples, mas universais.
O homem não sabe muito bem usar o dinheiro.
Nem está acostumado com a ajuda de outras pessoas.
E a garota deve se confrontar à sua ingenuidade.
Diante da sociedade globalizada.

O filme não retrata a educação dos mais velhos aos mais novos.
Defende que ambos têm a mesma quantidade de conhecimento a ensinar.

O Festival de Gramado exibiu filmes latinos de baixo orçamento.
Boa parte deles marcados por dificuldades técnicas.
Mas a produção limitada de "Guaraní" não prejudicou a qualidade.
A montagem impecável imprime ritmo contemplativo, porém fluido.
A fotografia trabalha muito bem a luz natural.
Os enquadramentos são funcionais.
E expõem as paisagens paraguaias sem idealização.

O naturalismo do projeto é intensificado pelas ótimas atuações.
Emilio Barreto e Jazmín Bogarín parecem confortáveis nos papéis.
E imprimem uma dinâmica quase documental aos embates.

"Guaraní" é um bom road movie.
E atribui importância maior ao trajeto do que ao destino.
É possível surgir uma frustração diante do final suspenso.
Mas se compreende preferência de Zorraquín.
Ele deixa a conclusão da história para a imaginação de cada espectador.

É interessante observar o progressivo afrouxamento das visões de mundo.
O avô começa a perceber a coragem da neta.
E ela não mais o enxerga como um homem ultrapassado.
Mesmo sem otimismo excessivo, "Guaraní" aponta a um desfecho caloroso.
O filme não fornece soluções para o embate cultural.
Nem teria como o fazer.
Mas observa as transformações da modernidade por um viés humanista e crítico.

Adaptado da crítica de Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema.

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