domingo, 14 de abril de 2013

Cazuza: Burguesia - "Perto do Fogo" e "Cobaias de Deus"

Era preciso agir rápido. Cazuza parecia saber disso melhor do que ninguém. Ele já usava cadeira de rodas ao entrar nos estúdios, dia 4 de abril de 1989. Exatamente no dia em que completava 31 anos de idade.

Disco Burguesia lançado em 1989 pelo Cazuza
Cazuza - Burguesia (1989)

“Meus deuses são muitos e eu acredito em todos eles”. (Cazuza)

Continuação de...
Cazuza 1989: Burguesia - Parte 1


“Eu Quero Alguém” (Renato Rocket, Cazuza)



“Baby Lonest” (Lobão, Ledusha, Cazuza)
Poema de Ledusha adaptado por Cazuza e Lobão. A música foi gravada, em 1986, por Lobão, em “O Rock Errou”. E depois, no disco "Ao Vivo", de 1990.




“Como Já Dizia Djavan” (Dois Homens Apaixonados) (Frejat, Cazuza)


“Perto do Fogo” (Rita Lee, Cazuza)
A inspiração veio da lembrança dos cabelos cor de fogo de Rita Lee, à beira de uma lareira, na casa dos pais de Cazuza, em Petrópolis. E Rita Lee gravou a sua versão no dia da morte de Cazuza – 7 de julho de 1990, sem saber que o poeta não estava mais vivo. A música fez parte de seu disco “Rita Lee e Roberto de Carvalho”.

“Certa vez, fui ao Rio de Janeiro gravar um programa de televisão. Acabei cruzando com João Araújo pelos corredores da Rede Globo. Papeamos e, no fim, expedi um mandato de beijos para ser entregue pessoalmente ao filho Cazuza. Na época, ele já estava bastante doente. Acredito que o pai mensageiro tenha sido bem eficiente. No dia seguinte, recebi, cedinho no hotel, uma letra de música com um telefone de contato: ‘Qualquer dia, qualquer hora, beijos, Cazuza’. Liguei no ato! Afinal, fazia anos que eu não falava com o ‘filho do patrão’, que ia me espiar nas gravações nos tempos pré-Mania de Você”. (Rita Lee)

“Alô, Cazuza. É Lee. Quanto tempo, hein menino”.
“Lee, você sabe que estou muito doente. E eu não vou morrer antes de você e Zeca fazerem as pazes na minha. Portanto, vamos tratar de marcar um encontro”.
“Ah, Cazuza. Deixa essa história para lá. Já passou...”
“Passou nada! Vocês dois se amam. Amanhã, te espero aqui”.

“Passei anos e anos sem o menor contato com Cazuza. Pois o abominável Ezequiel Neves, ex-vampiro meu, inventou casos e mais casos para barrar minha presença no baile do Barão Vermelho. Entendi, na época, aquela manobra macabra da velha raposa. E fiquei na minha. Apenas lamentei que uma pessoa tão nefasta quanto ele estivesse posando de amigo íntimo de um menino tão sensível como o Cazuza. ‘Ó, céus! Vou vestir a minha máscara para encarar esta dura tarefa... Mas, afinal, tudo pelo Cazuza’. Cheguei na hora marcada. E quando eu entrei no quarto, fiz toda uma encenação. Sorrisos. Apertos de mão. E até um abraço eu dei” (Rita Lee)


“Depois do teatro de reconciliação, fiquei um tempo sozinha com Cazuza no quarto. E conversamos sobre a letra de ‘Perto do Fogo’, que ele havia mandado. Disse que todo aquele tempo que ficamos longe, ele sempre pensou em mim de uma maneira bacana: ‘Outro dia mesmo, quando estava lá em Petrópolis observando a lareira, as labaredas desenharam sua cara. E psicografaram a letra da música. Achei legal que a cor da cena lembrou seu cabelo de fogo’”. (Rita Lee)

“Voltei para o hotel. Descolei um k7. E, em cinco minutos, a música estava pronta, tamanha a inspiração. Mandei uma cópia e Cazuza adorou. Dia seguinte, a letra de ‘Comprimidos’ estava me esperando na portaria do hotel. Ela tinha partes daquela conversa que tivemos no quarto dele na véspera. Sobre como nós dois apelamos a comprimidos químicos para resolver as nossas dores existenciais. E rimos muito de nossa magreza. Decidimos que na leveza do ser voávamos mais alto. Cazuza disse ter lido que só em 2020 o Brasil iria sair do sufoco. E perguntou para mim o que eu achava disso”. (Rita Lee)

“Sei lá, meu! Deixa ver... Em 2020, eu vou ter o que, 72, 73 anos?”
“Ah, vai ser tudo igual, hahaha”, completou o menino numa boa gargalhada...

“Um tempo depois, me lembro de ter feito um heavy metal de ‘Comprimidos’. Uma pauleira pesadona. Com a mudança de apartamento, a demo acabou se perdendo. Mesmo assim, cheguei a cantarolar pelo telefone para o Cazuza, que gargalhava do outro lado: ‘Oba! Quem sabe, agora a gente vai fazer serenata para os médicos e conseguir umas receitinhas na boa, né?’” (Rita Lee)


“Cobaias de Deus” (Ângela RoRô, Cazuza)
“Não era íntima de Caju. Mas vivia ligando para saber dele e perguntava sempre: ‘E aí, como é que é, cara? Como é que você está se sentindo?’. A letra de ‘Cobaias de Deus’ é como uma resposta dele para mim. Eu estava em Búzios, numa pousada, quando Cazuza ligou. Estava internado na Clínica São Vicente. Havia uma zorra tão grande de amigos no quarto que eu até brinquei: ‘Caju, o que é que estou fazendo aqui? Vou praí’. Ele estava puto comigo pois eu não tinha gravado ‘Malandragem’. E disse que ia mandar uma letra para eu musicar”. (Ângela RoRô)


“Semanas depois, recebi a carta com a letra na casa de Araras, em Petrópolis. Esta carta chegou com um selo normal. Cazuza mandou a letra escrita à mão. Eu peguei um violão vagabundo e fiz uma espécie de réquiem. E costurei a letra na métrica da canção. E eu tenho muito orgulho disso, pois ‘Cobaias de Deus’ é uma das grandes letras de Cazuza”. (Ângela RoRô)

Segue com...
Cazuza 1989: Burguesia - Parte 3

Comentários retirados do livro “Preciso Dizer que Te Amo – Todas as Letras do Poeta”

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