quinta-feira, 11 de abril de 2013

Cazuza: Show no Teatro Ipanema - “Brasil”, “Por que A Gente é Assim”, “Exagerado”, “Pro Dia Nascer Feliz”, “Maior Abandonado”

“O Poeta Está Vivo” é um disco ao vivo de Cazuza em 1987. De suas 18 músicas, metade é do disco “Só Se For a Dois”. Cinco são da época do Barão Vermelho. Outras duas são do disco “Exagerado”. E as duas restantes, do disco “Ideologia”, lançado apenas em 1988.

O Poeta Está Vivo - Capa do Disco que Cazuza Gravou em 1987
Cazuza - O Poeta Está Vivo (1987)

Continuação de...
Cazuza 1987: Show no Teatro Ipanema - Parte 2


“Brasil” (George Israel, Nilo Romero, Cazuza)
A música foi composta, sob encomenda, para a trilha sonora do filme ‘Rádio Pirata’, do cineasta Lael Rodrigues. “Brasil” também foi o tema de abertura da novela “Vale Tudo”, da Rede Globo, em 1988. Nesta versão, a música era cantada por Gal Costa.

“A letra de ‘Brasil’ é como um cara pobre, normal, vê, sem paternalismo, este 1% da população que está se dando bem. E da qual eu faço parte. Sempre tive horror de política. Mas há coisas que você nem precisa saber. Qualquer um vê”. (Cazuza)

“‘Brasil’ é uma música crítica. Mas não tem nada a ver com uma fase política em minha obra. Eu simplesmente passei o ano passado (1987) do lado de dentro. E ao abrir a janela vi um país totalmente ridículo. O José Sarney, que era o não-diretas, virou o rei da democracia. O Brasil é um triste trópico”. (Cazuza)

“A droga que vem malhada não é só o pó, mas o salário que já vem assim também. ‘Brasil’ é um deboche sem autocompaixão em que eu peço à pátria que conte todas as suas sacanagens, que eu não vou espalhar para ninguém”. (Cazuza)


“Os problemas do Brasil parecem os mesmos desde o descobrimento. A maioria da população sem acesso a nada, renda concentrada... A classe média paga o ônus de morar num país miserável, coisas que parecem que vão continuar assim”. (Cazuza)

“O problema todo do Brasil é a classe dominante. Os políticos são desonestos. E a mentalidade do brasileiro é muito individualista. Adora levar vantagem em tudo. A educação é a única saída que poderá mudar esse quadro”. (Cazuza)

“Essa letra nasceu da necessidade de Cazuza escrever algo que ficasse marcado na vida de todo brasileiro. Como se fosse um hino à intolerância perante o pouco caso das pessoas que tomam as decisões no país. Lael Rodrigues convidou Cazuza para fazer a música de seu próximo filme. Este filme abordaria escândalos financeiros e impunidade. E foi a centelha”. (Nilo Romero)

“O curioso dessa história é que eu e o George Israel tínhamos combinado de fazer uma com três acordes. Tinha aquela história de que a música pop apenas tinha três acordes. E nós, de brincadeira, decidimos fazer uma música assim. Nós queríamos, também, juntar samba e rock, pois alguns artistas vinham propalando essa mistura aos quatro ventos. Na nossa opinião, ninguém havia conseguido fazer. Então, saiu a música”. (Nilo Romero)

“Certo dia, Cazuza falou do convite para fazer a música de um filme. Não tínhamos muita idéia sobre o que era o filme. E como a referência era de que o diretor era o mesmo de ‘Bete Balanço’, achamos que nossa música seria ideal. E quando Cazuza apareceu com aquele petardo, eu pensei: ‘Caramba! Se soubesse que a letra seria esta, talvez tivéssemos feito algo mais elaborado’. Mas talvez não tivesse saído tão bom”. (Nilo Romero)


“Por que A Gente é Assim” (Cazuza, Ezequiel e Frejat)
“Eu e Cazuza tínhamos esse bordão, que a gente repetia sempre que aprontava na noite. A letra nasceu numa madrugada de 1984. Foi numa noite em que estávamos loucos demais. Olhei para o Cazuza e disse: ‘Você sabe que eu tenho quatro versos que explicam isso?’ Os versos eram: ‘Canibais de nós mesmos / Antes que a terra nos coma / Cem gramas, sem dramas’. E Cazuza completou: ‘Por que a gente é assim?’. E ali mesmo começou a criar a letra, que eu considero o manifesto de uma geração. Cazuza logo teve a ideia de outra imagem forte: ‘Você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar’. Os meninos do Barão resistiram, no início, a esse versos, que remete, na verdade, a uma piada sobre homossexuais. Mas depois acabaram cedendo.” (Ezequiel Neves)



“Exagerado” (Leoni, Cazuza, Ezequiel Neves)
“Talvez ‘Exagerado’ seja a minha música mais autobiográfica. Mas quando eu fiz a letra, estava pensando no Zeca (Ezequiel Neves).” (Cazuza)

“Quando eu e Zeca mandamos a letra de ‘Exagerado’ para o Leoni musicar, eram trinta e tantos versos. Ele teria que enxugar um pouco. Só que enxugou demais. Até o título poderia ser ‘Tímido’, pois ele cortou ótimos versos. Basta dizer que não havia mais os versos: ‘Por você eu largo tudo / Carreira, dinheiro e canudo’. Mas a música estava ótima. E nós só tivemos que colocar novamente os versos cortados. Foi o que fizemos. E a música acabou se transformando no meu cartão de visitas.” (Cazuza)


“Eu queria um hit para o quarto disco do Barão. E não gostei da melodia de Frejat para ‘Exagerado’. Aí procurei o Leoni, do Kid Abelha, que é um hitmaker. Lembro de correr para o estúdio em que o Leoni estava gravando e pedir a ele um hit. Ele, realmente, fez a música. Mas tirou alguns versos da letra. E me disse que era para amenizar um pouco. Na verdade, ele tirou o que de melhor havia nela. O Frejat, no entanto, nos incentivou a colocar tudo de volta. Foi o que nós fizemos.” (Ezequiel Neves)

“Quando Ezequiel e Cazuza me levaram a letra de ‘Exagerado’, o Cazuza me falou que tinha imaginado uma melodia latina, um bolero. Mas ‘Exagerado’ acabou sendo a música mais pop do disco dele. Ao mostrar a melodia, cerca de uma semana mais tarde, Cazuza ficou amarradão.” (Leoni)


“O Lobo Mau da Ucrânia” (Rogério Meanda, Nilo Romero, João Rebouças, Ezequiel Neves, Cazuza)



“Pro Dia Nascer Feliz” (Cazuza, Frejat)
“A noite é uma opção de vida. Gosto de acordar tarde e dormir com o sol nascendo. Por isso, ‘Pro Dia Nascer Feliz’ é a história da minha vida.” (Cazuza)

“O Ney chegou lá em casa, tocou a campainha. A empregada atendeu me acordou dizendo: ‘Ney Matogrosso está aí’. Eu resmunguei: ‘Traz a Gal Costa também’. E eu continuei dormindo. O Ney foi ao quarto e começou a bater na minha cara gritando para eu acordar e ganhar dinheiro. Ele ouviu o disco ‘Barão Vermelho 2’ e resolveu gravar ‘Pro Dia Nascer Feliz’. Eu disse: ‘Não. Pelo amor de Deus, é nossa música de trabalho. Grava outra’. Ele bateu pé. E acabou sendo nossa fada-madrinha. O Ney provou que o Barão é viável. E gravou o mesmo arranjo. Discutiu com a gravadora, que não queria botar a música de trabalho no disco dele, e soltou na rua”. (Cazuza)

“Foi importante que as pessoas começassem a procurar o disco da gente. O Barão era conhecido como grupo maldito. De repente, nosso segundo disco teria passado em branco se o Ney não comprasse essa barra.” (Frejat)


“É claramente a história de uma trepada que durou até o dia seguinte. Não tenho a menor ideia de com quem foi. E nem em que noite isso aconteceu... Mas nós dois sabíamos que essa música ia ser boa. Já pela letra no papel, sabíamos que ela iria funcionar.” (Frejat)

“Tem gente que se irrita porque eu canto que todo mundo vai pegar a sua pasta e ir pro trabalho de terno. E eu vou dormir depois de uma noite de trepadas incríveis. Mas o dia-a-dia não é poético. Todo mundo dando duro e a cada minuto alguém é assaltado ou atropelado. Então, vamos transformar esse tédio numa coisa maior. Li uma vez que você vive não quantas mil horas e pode resumir tudo em apenas cinco minutos. O resto é apenas dia-a-dia. Um olhar, uma lágrima que cai, um abraço... Isso é muito pouco na vida. Mas, para mim, é tudo. Eu prefiro não acreditar no Day after, no fim do mundo, no apocalipse. Um dia, ainda vou andar na nave espacial Columbus. Bêbado, lógico. Mas vou andar.” (Cazuza)


“Maior Abandonado” (Cazuza e Frejat)
“O maior abandonado é a pessoa de maior que está solta no mundo. Ele precisa de proteção do governo e não tem. É também aquele que está vivendo o trauma dos 18 anos. É quando você fica mais carente, porque sabe que está ficando mais velho e ainda não é muito safo.” (Cazuza)

“’Mentiras sinceras me interessam’, um verso da música, é uma discreta e candente referência ao estertor da carência afetiva. Parece um cara, à cinco hora da manhã, andando pelas ruas, sozinho, atrás de uma mulher. E dali sai um grande amor. O grande amor da sua vida. Pura ilusão.” (Cazuza)


“Recebi carta de um garoto de Porto Alegre. Perguntou se eu não tinha consciência de que estava pirando a cabeça de todo mundo. Escrevi para ele dizendo: esquece. Não quero mudar a cabeça de ninguém. Estou falando da minha vida. E levando a vida na arte. Acho que não tem nada melhor nem mais bonito do que contar sobre a minha vida.” (Cazuza)

“O menor abandonado é um problema social. Mas no fundo quase todos nós somos ‘maiores abandonados’ no sentido afetivo. Nessa de querer ficar com qualquer um, com qualquer pessoa, só para não ficarmos sozinhos. Porque 99,9% da população é ou já foi algum dia um maior abandonado.” (Cazuza e Frejat)

Comentários retirados do livro “Preciso Dizer que Te Amo – Todas as Letras do Poeta”

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