terça-feira, 9 de abril de 2013

Cazuza 1985: “Codinome Beija-Flor”, “Só As Mães São Felizes”, “Rock da Descerebração”

“Hoje sei que vendo meu bacalhau. Mas meu lance mesmo é a poesia, que mastigo e vomito no público.” (Cazuza)

“Ao lançar o primeiro disco solo, me sinto de resguardo de um filho muito amado, muito esperado e muito trabalhado. Todos os detalhes foram supertratados. Desde a orquestração às letras. E busquei parceria de gente que se afina comigo, como o Frejat e o Leoni, do Kid Abelha, que fez o rock ‘Exagerado’, carro-chefe do disco. O Rogério Meanda agora está na minha banda. O Zé Luiz, saxofonista do Caetano e o Renato Ladeira, do Herva Doce, também participam. Mas há outros. A maioria das músicas é rock da pesada. Embora haja blues, funks e baladas.” (Cazuza)

Cazuza (1985) - Capa do disco "Exagerado"
Cazuza - Exagerado (1985)


Continuação de...
Cazuza 1985: Exagerado - Parte 1


“Codinome Beija-Flor” (Reinaldo Arias, Cazuza, Ezequiel Neves)
Em 31 de julho de 1985, logo depois de deixar o grupo Barão Vermelho, Cazuza foi internado com febre alta e convulsões. O teste para HIV deu negativo. Aconteciam festas diárias nos dois apartamentos alugados pelos pais de Cazuza no Hospital São Lucas. Os beija-flores que rondavam as janelas do quarto foram a inspiração para a letra de ‘Codinome Beija-Flor’, uma das mais líricas de seu repertório.

“Lá no hospital o Cazuza me disse que estava fazendo uma música porque tinha um beija-flor que aparecia na janela. Pedi para ele me mostrar. Era muito poética. Mas não entendi nada, pois a letra não tinha nenhuma historinha. Quando falei isso, ele reagiu: ‘Está querendo que eu seja o quê? Um babaca? Está querendo que eu faça uma coisa cafona?’ Aí, fez mais duas versões não tão boas. E, ao contrário de usar a expressão segundas intenções, usou terceiras intenções. Achei genial. Essa letra é muito sensível. Parece Cecília Meireles.” (Ezequiel Neves)


“Na hora de gravarmos, aconteceu o absurdo. O Nico Resende tinha feito arranjo de discoteca para a música. Eu estava tão doido de uísque que falei para o Nico: ‘Você não vai fazer isso de jeito nenhum. A música pede piano, voz e, talvez, um violino elétrico’. Foi o que fizeram. Concordaram. Tiraram o bate-estaca e a música foi um sucesso. O Cazuza também me deu parceria nessa canção porque tínhamos mexido juntos na letra ainda no hospital.” (Ezequiel Neves)


“Desastre Mental” (Renato Ladeira, Cazuza)
“Tornei-me parceiro de Cazuza graças à minha ex-mulher, Elizabeth. Ela trabalhou com Cazuza. Um dia ela contou que ele vivia perguntando por que eu não musicava uma letra dele. Eu fiz um rock e mandei para o Cazuza. Ele fez a letra e me passou depois. Foi nossa primeira parceria. Acabei gravando essa música com meu grupo, o Herva Doce.” (Renato Ladeira)

“‘Desastre Mental’ foi criada no estúdio. Certo dia, o Cazuza chegou com uma letra pronta. Pediu ao Renato Ladeira que a musicasse. Cazuza disse que queria um rock bárbaro, violento. O Ladeira fez exatamente isso. A música ficou bem heavy desde o início.” (Ezequiel Neves)



“Boa Vida” (Frejat, Cazuza)



“Só As Mães São Felizes” (Frejat, Cazuza)
“Desde o primeiro disco do Barão, o Zeca me chamava a atenção para o meu lado transgressor. Em minhas letras, sempre me desnudei. O Zeca dizia: ‘Vá com calma. Nós estamos em 1982. E a barra está pesada. Diga tudo o que passar pela cabeça. Mas vou mandar para a censura letras diferentes. Depois você canta e grava o que quiser cantar’. Quase sempre deu certo. Isso porque, no caso de ‘Só As Mães São Felizes’, eu bobeei e mandei a letra certa. Vetaram, é lógico. Não entenderam que era uma coisa moralista, pós-Nelson Rodrigues. Usei imagens fortes. Para falar de meu preconceito de não permitir a nenhuma mãe do mundo encarar as barras que eu encarava. Era como se eu dissesse que as mães são para serem colocadas num altar, para serem veneradas.” (Cazuza)

“Fiz uma música sobre um bar de São Paulo, o Val Improviso, chamada ‘Só As Mães São Felizes’. O Val Improviso era um lugar chique. As pessoas mais ricas chegavam lá e encontravam os marginais. Acho que a noite tem isso. Todo mundo vira irmão. É meio chapliniano. É o bêbado que no dia seguinte não te reconhece”. (Cazuza)


“Essa letra foi feita a partir de um verso de Jack Kerouac, tirado do livro ‘Scattered Poems’. Um verso de um poema dele que me deixou muito intrigado: ‘Só As Mães São Felizes’. Dita deste modo parece que ninguém mais é. Eu usei essa frase como uma brincadeira. Pois, na verdade, a música é uma homenagem a todos os poetas malditos. Eu quis homenagear esse tipo de poeta, de cantos. Esses loucos que têm pela vida. E são santos e demônios ao mesmo tempo.” (Cazuza)

“A música não tem qualquer ligação com a minha mãe. Nem quis a homenagear. A homenagem é a todas as pessoas diferentes e aos poetas. O Kerouac está presente apenas nessa frase. Eu a coloquei no final, de brincadeira, para dar razão ao título.” (Cazuza)

“Nunca fui uma pessoa da noite. Mas o Cazuza me deu a letra e disse que me ouvia cantando essa canção. Embora ela não tivesse nada a ver com a minha história. Eu acabei gravando somente em 1999, no disco ‘Balada MTV’ do Barão.” (Frejat)


“Rock da Descerebração” (Frejat, Cazuza)
“Esta canção foi feita sob encomenda para a peça ‘Ubu Rei’, de Alfred Jarry. Luiz Antônio Martinez Correa montou-a, com elenco amador, no Rio de Janeiro. Ubu Rei é uma peça muito louca. Jarry foi o primeiro punk. O primeiro beatnik. O Père Ubu, personagem principal, diz: ‘Abaixo a liberdade, viva a escravidão’. Ele faz tudo para ser preso e, na cadeia, não ter que trabalhar. E o ‘Rock da Descerebração’ foi feito dentro desse espírito do Jarry. É tudo uma grande brincadeira.” (Cazuza)


Comentários retirados do livro “Preciso Dizer que Te Amo – Todas as Letras do Poeta”

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